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sábado, 5 de setembro de 2009

Realidades inconciliáveis

Contos fantásticos do século XIX
O fantástico visionário e o fantástico cotidiano

Organização de Italo Calvino
Cia. Das Letras, 2004

Feliz decisão da editora em nos apresentar essa obra, calorosamente recebida pela crítica. Italo Calvino fez uma divisão em que seus escolhidos apontam para o futuro, no caso do fantástico visionário, ou para o presente, os do cotidiano. Todos eles com a mesma característica – a capacidade de agarrar o leitor na primeira linha, e não deixá-lo em paz até o ponto final. Explica o organizador: “”Seu tema (do conto fantástico) é a relação entre a realidade do mundo que habitamos e conhecemos, por meio da percepção da realidade, do mundo do pensamento que mora em nós e nos comanda. O problema da realidade daquilo que se vê – coisas extraordinárias que talvez sejam alucinações projetadas por nossas mentes; coisas habituais que talvez ocultem sob a aparência mais banal, uma segunda natureza inquietante, misteriosa, aterradora – é a essência da literatura fantástica, cujos melhores efeitos se encontram na oscilação de níveis de realidades inconciliáveis.”
A seleção é abrangente e variada. Estão presentes escritores muito importantes como Honoré de Balzac, Nikolai Gogol, Prosper Merimée, Edgar Allan Poe, Hans Christian Andersen, Charles Dickens, Ivan Turguêniev, Auguste Villiers de l’Isle-Adam, Guy de Maupassant, Robert Louis Stevenson, Henry James,para só citar uma parte dos contemplados. Cada um com um único conto.

Publicado originalmente em D.O. Leitura, maio/junho de 2004

A riqueza do Brasil

Patrimônio ambiental brasileiro
Coleção Uspiana Brasil 500 anos

Organizador: Wagner Costa Ribeiro
Imprensa Oficial/Edusp, 2003

Patrimônio ambiental – este é um campo em que o Brasil pode ser proclamado efetivamente rico. Estima-se que entre 10% e 20% das espécies animais e vegetais, e quantidade equivalente da água doce disponível no mundo, estejam por aqui. É disso que trata este livro, da forma mais ampla e abrangente: especialistas da Universidade de São Paulo das áreas de Humanidades e Ciências da Terra e da Vida foram chamados a colaborar na sua elaboração. Trata-se, assim, de uma reflexão plural que ataca o objeto de estudo, simultaneamente, pelo lado dos problemas, do passado, do presente, das perspectivas para o futuro.
Pode-se dizer com segurança que a devastação ambiental, no Brasil, começou logo a seguir ao descobrimento, tanto que o pau-brasil, nosso primeiro sucesso de exportação, logo caiu em ameaça de extinção. As novas terras foram ocupadas de forma predatória, como, aliás, se fazia em toda parte naquela época: tratava-se de recolher as riquezas possíveis, de forma rápida. Depois vieram a ocupação, o desenvolvimento dos ciclos agrícolas – com a cana de açúcar e o café, por exemplo, perdeu-se quase toda a Mata Atlântica do litoral. A industrialização dilapidou depósitos de minerais, como a bauxita, o manganês, o ferro, na maior parte usados para exportação. A modernidade, finalmente, trouxe novas e mais eficientes formas de exploração agrícola intensiva dos solos, que sofreram erosão, perderam nutrientes, exigiram adubos e defensivos para se tornarem outra vez produtivos, o que levou à poluição das águas subterrâneas.
Leis e regulamentos produzidos pelos governantes na colônia, no império e no começo da República tentaram inutilmente coibir algumas dessas práticas predatórias. O assunto só entrou, significativamente, nas preocupações das pessoas no final do século 20. O mundo chega ao século 21 empenhado em salvar o que ainda resta, e o Brasil, apesar desse passado doidivanas, é um dos raros milionários com riquezas para exibir e desfrutar.
Diz o texto de apresentação: “O descompasso entre países detentores de tecnologia e países com estoque de informação genética foi uma das razões para a articulação da ordem ambiental internacional, um conjunto de convenções que procura regular a ação humana em escala mundial para mitigar problemas ambientais (...) Com este livro, pretende-se avaliar os impactos ambientais associados à desigualdade social brasileira ao longo da história do país e apontar diretrizes para o futuro. Um futuro que já exige ações dos dirigentes do país e que alcança repercussão nacional e internacional, como nas conferências promovidas pela Organização das Nações Unidas.”
Publicado originalmente em D.O. Leitura, maio/junho de 2004.

Próximos de nós

Um rio chamado Atlântico
Alberto da Costa e Silva
Nova Fronteira/Editora da UFRJ, 2003

Aqui estão reunidos artigos que o autor publicou em diferentes locais, a partir de 1961, todos sobre a África, a outra margem do rio chamado Atlântico. Costa e Silva dispensa especiais amor e interesse por esse continente, onde passou boa parte de sua vida profissional, como diplomata. Isso lhe permitiu recolher abundante material arqueológico, antropológico e histórico, com os quais já nos presenteou com três livros luminosos – “As relações entre Brasil e a África negra, de 1822 à I Guerra Mundial”, “A enxada e a lança: a África antes dos portugueses”, e “A manilha e o libambo: a África e a escravidão de 1500 a 1700”.
Sobre essa coletânea de ensaios ele observa: “Preocupados com nós próprios, com o que fomos e somos, deixamos de confrontar o que temos por herança da África com a África que ficou do outro lado do Atlântico”. E avança na advertência: “Se, após 1500, não se pode estudar a evolução do Brasil sem considerar as mudanças na política portuguesa e o que se passava num império de que fazíamos parte e que se alongava de Macau a Lisboa, os três séculos de comércio de escravos ligam indissoluvelmente os acontecimentos africanos, sobretudo os da África Atlântica, à vida brasileira”.
E conclui: “A história da África é importante para nós, brasileiros, porque ajuda a explicar-nos.”

Publicado originalmente em D.O. Leitura, abril de 2004.

Federico Garcia Lorca

Obra poética completa (edição bilíngüe)
Tradução: William Agel de Melo
São Paulo, Editora da UnB/Imprensa Oficial do Estado

Concorda-se, em geral, com a observação de que a poesia de Garcia Lorca é puramente espanhola. Também é certo que ele nunca esteve preso a correntes, movimentos ou escolas. Como observa Ático Vilas-Boas da Mota, apresentador desta edição das obras completas, ele “sabia aproveitar praticamente as lições de quase todas as tendências e escolas literárias para desembocar no artesanato da palavra, seu ofício maior”. Não falta, ainda, quem atribua muito de sua repercussão, também fora do país, ao destino trágico do escritor, que sem ser propriamente um engajado político, embora tivesse manifestado apoio ao campo republicano, foi morto pelas forças reacionárias que tomaram a Espanha de assalto, na mesma época em que o nazismo alemão e o fascismo italiano deslumbravam partes da Europa.
Foi um poeta moderno, que cultivou amizades no campo do surrealismo, como o pintor Salvador Dali e o cineasta Luís Buñuel, mas não se deixou influenciar, embora muitos vejam alguma coisa de surrealista, sobretudo em seu teatro, onde despontam obras consagradas como Yerma, Bodas de sangre, La casa de Bernarda Alba. Como quase todas as edições da obra completa de Garcia Lorca, esta também traz a série de desenhos com que ele a ilustrou, ao longo da curta vida de 38 anos.
Publicado originalmente em D.O. Leitura, 2005

Oportuna reedição

Dicionário de política
Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino
Tradução de Carmem C. Varriale, Gaetano Lo Monaco, João Ferreira, Luís Guerreiro Pinto Cascais e Renzo Dini
São Paulo, Imprensa Oficial/Editora da UnB, 2004

As edições deste livro portentoso, quase duas mil páginas, em dois volumes, sucedem-se com regularidade, prova de que se mantém atual e consegue angariar sempre novos leitores. Os doutos autores que nele trabalharam – 122 mestres consagrados em diferentes matérias distribuídos por universidades espalhadas pelo mundo, sob o comando do notável pensador italiano Norberto Bobbio, auxiliado pelos colegas Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquini – dedicam-no a um leitor “não especialista, ao homem culto e aos estudantes de segundo grau e nível superior, e a todos os que lêem revistas e jornais políticos, aos que ouvem conferências e discursos, aos que participam de comícios ou que assistem a debates na televisão, dirigidos por especialistas ou políticos profissionais”.
Não sem razão, pois “a linguagem política é notoriamente ambígua” e “a maior parte dos termos usados no discurso político tem significados diversos”. Tal variedade depende “tanto do fato de muitos termos terem passado por longa série de mutações históricas – alguns termos fundamentais, tais como democracia, aristocracia, déspota e política foram-nos legados por escritores gregos –, como da circunstância de não existir até hoje uma ciência política tão rigorosa que tenha conseguido determinar e impor, de modo unívoco e universalmente aceito, o significado dos termos habitualmente mais utilizados”,
Trata-se de obra “exaustiva”, dizem ainda os autores, e isso torna mais notável a popularidade de que desfruta. A reedição, portanto, justifica-se, e parece bem oportuna, dadas as singularidades da vida política brasileira neste momento, quando um partido oposicionista tenta consolidar-se no poder, recorrendo a variados métodos para conquistar apoios e consolidar alianças, entre alguns dos seus adversários do passado, o que leva os meios de comunicação, em geral, a dedicarem a essas questões tempo e espaço acima do que seria considerável aceitável em tempos menos agitados. Por isso mesmo, essa sensação de oportunidade se estende ao campo internacional, onde conflitos e guerras se sucedem, e agora desponta a incomum necessidade de substituição de um chefe de Estado de envergadura descomunal, como o Papa.
Sobre o coordenador do trabalho escreve apropriadamente o sociólogo e ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, num curto prefácio a esta quinta edição: “Se a condição de intelectual com vida ativa já o recomendava, até para a identificação dos temas de real relevância, esforços enciclopédicos como a feitura do Dicionário somente puderam prosperar pela vocação multidisciplinar de Norberto Bobbio.” Um militante das soluções pacíficas, “que se opunha com contundência à lógica da dissuação nuclear, ao equilíbrio do terror”, que considerava inconsistente com todas as tentativas feitas até então para se dar um sentido à humanidade. “A Guerra Fria terminou”, lembra Fernando Henrique, “dando lugar a um conflito de fundamentalismos, que parece reclamar, para a sua superação, a mesma terapia: coordenação multilateral e uma nova ética, inspirada nos valores da paz e da democracia.”

Publicado originalmente em D.O. Leitura, 2005

Incertezas e angústias

QUESTÃO DE ÊNFASE
Susan Sontag
Tradução de Rubens Figueiredo.
São Paulo, Companhia das Letras, 2005

São 41 textos, publicados num período de vinte anos, divididos em três partes: “Ler”, dedicada a livros e escritores; “Ver”, que trata das artes visuais e dos espetáculos; na terceira, “Lá e aqui”, exibe-se a extraordinária versatilidade dessa intelectual americana que nunca aceitou separar “a vida contemplativa” da “vida ativa”: uma mistura de lembranças de viagens, dos momentos de isolamento criativo, um relato da loucura que foi dirigir a peça Esperando Godot, de Samuel Becket, na Sarajevo sitiada durante a guerra da Bósnia. Feito a que ela apresentou uma justificativa: “Cultura, cultura séria, é uma expressão da dignidade humana”.
Na primeira parte, é impossível para nós, brasileiros, ignorar o ensaio de 14 páginas dedicado ao livro Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Além de reservar-lhe tão grande espaço, a escritora brinda-o com elogios consagradores: “È, pelo visto, um desses livros arrebatadoramente originais, radicalmente céticos, que sempre impressionarão os leitores com a força de uma descoberta particular. É pouco provável que soe como um grande elogio dizer que esse romance, escrito mais de um século atrás, parece bem... moderno.” Sontag espanta-se de que tal escritor seja tão pouco conhecido no mundo, e sobretudo que seja tão pouco lido nos países sul-americanos, “como se ainda fosse difícil digerir o fato de que o maior romancista produzido pela América Latina tenha escrito em português e não em espanhol”.
Em carta póstuma, dirigida ao argentino Jorge Luís Borges, por um triz não caiu em contradição, ao lembrar o que dissera em entrevista concedida antes da morte do escritor: “Não existe hoje um escritor vivo mais importante para os outros escritores do que Borges. Muitos diriam que ele é o maior escritor vivo hoje (...) Muito poucos escritores de hoje não aprenderam algo com ele ou não o imitaram.”
O fato é que ela percorre com desenvoltura e graça grande variedade de territórios. O cinema, depois de quase cem anos acumulando glórias, parece-lhe afundar-se “num declínio irreversível e degradante”. Sobre os dançarinos observou, argutamente: “Toda vez que parabenizei um amigo ou conhecido que é dançarino por sua excelente apresentação – e incluo Baryshnikov –, ouvi antes de tudo uma desolada ladainha de erros cometidos: perde-se uma batida, um pé não ficou apontado na posição correta, houve um ligeiro escorregão numa complicada manobra com o par (...) Em nenhuma outra arte se pode encontrar um abismo comparável entre aquilo que o mundo pensa de um astro e aquilo que o astro pensa a respeito de si”. Sobre a ópera de Wagner, escreveu: “Observou-se desde o início que ouvir Wagner produzia um efeito semelhante a consumir psicotrópicos: ópio, disse Baudelaire, álcool, disse Nietzsche”. E concluiu, arrasadora: “Os altos valores redentores e aliciantes que Wagner acreditava expressar em suas obras foram desacreditados de vez (devemos isso à ligação histórica entre a ideologia wagneriana e o nazismo). Poucos cogitam ainda, como fizeram gerações de admiradores e de tementes de Wagner, acerca do que suas óperas dizem. Agora Wagner é apenas desfrutado ... como uma droga.”
Sobre a ópera em geral, observou: “Todas as artes feitas com música – porém, mais do que qualquer outra, a ópera – aspiram à experiência do êxtase”. O mundo da fotografia oferece-lhe a oportunidade para discorrer sobre o eterno conflito homem x mulher: “Queira ou não, um livro de fotos de mulheres terá de levantar a questão das mulheres – não existe nenhuma equivalente ‘questão dos homens’. À diferença das mulheres, os homens não são uma obra em andamento”.
E finalmente, a certeza que extraiu do exercício de seu trabalho: “Aí está a grande diferença entre ler e escrever. Ler é uma vocação, uma habilidade na qual, mediante a prática, certamente nos tornamos mais aptos. O que acumulamos como escritores são sobretudo incertezas e angústias.”
Publicado originalmente em D.O. Leitura, março de 2005

segunda-feira, 11 de maio de 2009

As igrejas e os deuses sob ataque II

Nos últimos quinhentos anos, sobretudo, cada vez que a ciência fez uma descoberta importante e inovadora, precisou enfrentar resistências das igrejas, as cristãs em particular. No final do século 15, começo do 16, o astrônomo polonês Nicolau Copérnico, sendo ele próprio um servidor do Vaticano, guardou até a morte os originais de seu livro De revolutionibus orbium coelestium (Das revoluções do orbe celeste) no qual cálculos minuciosos e precisos atestavam que a Terra gira ao redor do Sol, e não o contrário, como se acreditava. Com medo da Inquisição, mandou imprimi-lo na Alemanha protestante e reza a lenda que, ao receber o primeiro exemplar das mãos de um mensageiro enviado às pressas, sequer teve tempo de folheá-lo – morreu instantaneamente. A Igreja Católica, na verdade, não lhe deu grande importância, no momento – mas na Alemanha protestante Martinho Lutero trovejou: “A Bíblia diz que Josué mandou o Sol e a Lua pararem no céu, e não a Terra”. Referia-se ao episódio em que os judeus fugitivos do Egito, agora liderados por Josué, o substituto do patriarca Moisés, lutaram até o fim do dia para conquistar a cidade de Gabom na terra prometida e receberam de Jeová a dádiva de mais algumas horas de luz para consolidar a vitória.

Nos anos seguintes, o italiano Galileu Galilei, muito menos discreto do que Copérnico, fez um carnaval com a teoria heliocêntrica, construiu um telescópio e conseguiu ver quatro minúsculos corpos luminosos girando em torno de Júpiter, e não da Terra. Os sábios da Inquisição sequer concordaram em olhar pelo telescópio, como ele os desafiou – e não fosse Galileu um amigo do papa, teria acabado na fogueira, como Giordano Bruno. Quando completou seus cálculos, Copérnico recebeu de um assistente, tão bom matemático quanto ele, uma observação de surpresa: “Se for assim, Vênus terá fases, como a Lua”. Ao que ele respondeu, sabiamente: “Um dia o bom deus proverá ao homem meios para comprovar isso”. Além de Galileu, muitos outros cientistas, como Johanes Kepler, atestaram que os cálculos de Copérnico estavam corretos, e tinham os telescópios, cada vez mais precisos e poderosos, para o confirmar. Mas só em 1822 a Igreja, discretamente, retirou o De revolutionibus do Index de obras proibidas.

Continua assim nos nossos tempos – a Igreja combate o uso da camisinha nas relações sexuais para prevenir o contágio pela Aids, recusa as pesquisas com células tronco, é contra o aborto, em qualquer circunstância. Em todos esses anos, os cientistas tiveram enorme dificuldade para defender suas descobertas contra esse obscurantismo religioso. Muitos porque eram, eles próprios, crentes em deus. Mas a maioria por receio de afrontar uma opinião pública avassaladoramente submissa às ordenações dos sacerdotes – cristãos católicos ou protestantes, maometanos, hinduístas e o que mais exista em matéria de crença na divindade.

Essa realidade, porém, começa a mudar. Já temos no Brasil, devidamente traduzidos do inglês, uma meia dúzia de livros produzidos na Inglaterra e, principalmente, nos Estados Unidos, em que cientistas de renome dispõem-se não apenas a defender as posições da ciência, mas a atacar com surpreendente aspereza o obscurantismo religioso. Fazem isso não apenas para defender as verdades científicas, mas como um alerta para os perigos que corre a civilização, com a possibilidade de que algum político submisso a esses mandamentos religiosos chegue ao poder. No caso específico, referem-se aos Estados Unidos, “a única superpotência mundial da atualidade, perto de ser dominada por eleitores que acreditam que o universo inteiro começou depois da domesticação do cachorro”. Sam Harris, que escreveu essa frase áspera no pequeno livro “Carta a uma nação cristã”, é o mais implacável desses autores. Logo de saída, cita uma enfiada de dados revelados por uma pesquisa do Instituto Gallup: 53% dos americanos são criacionistas, o que significa que apesar de um século inteiro de descobertas científicas que atestam como é antiga a vida na Terra, e mais antigo ainda nosso planeta, acreditam que o cosmos inteiro foi criado há seis mil anos.
“Os que têm o poder de eleger presidentes, deputados e senadores – e muitos dos que são eleitos – acreditam que os dinossauros sobreviveram ao dilúvio, junto com seus pares, na arca de Noé (...) e que os primeiros membros da nossa espécie foram modelados a partir do barro e do hálito divino, em um jardim com uma cobra falante, pela mão de um deus invisível”. Esses crentes, diz Harris citando, ainda, a pesquisa Gallup, “não se preocupam com o destino da civilização”, pois “nada menos do que 44% da população americana está convencida de que Jesus vai voltar para julgar os vivos e os mortos em algum momento dos próximos 50 anos”. Lembra que a profecia bíblica afirma que Jesus voltará à Terra só depois que as coisas derem “terrivelmente errado; portanto, não é exagero dizer que se Londres, Sidney ou Nova York de repente virarem uma bola de fogo, no centro de uma explosão nuclear, uma porcentagem significativa da população americana veria um lado auspicioso nisso, pois a melhor coisa que pode acontecer ao mundo está prestes a se realizar: a volta de Jesus Cristo”.

Há muito que meditar, a partir da argumentação de Sam Harris e de seus parceiros Christopher Hitchens e Richard Dawkins. Algo de novo e surpreendente parece estar no ar. Que não se trata apenas de excentricidades de jovens buliçosos atesta-o o fato de que o livro de Dawkins, que comentarei proximamente, recebeu uma arrebatadora e elogiosa definição do crítico do jornal Independent: “Um ataque brilhante à onda de superstição que mais uma vez percorre o mundo, pelo grande cientista que, ao longo de sua carreira, tem demonstrado a força da razão sóbria e incisiva para explicar a vida”. Para um jornal americano chamar a crença religiosa de superstição, é sinal de que as coisas começam a mudar radicalmente.

As igrejas e os deuses sob ataque I

Nos tempos modernos, a mais feroz disputa entre ciência e religião vem sendo travada em torno da evolução das espécies pela seleção natural. Ela põe por terra a crença do cristianismo e do judaísmo sobre a criação do mundo e dos seres que o habitam em uma semana, por um deus todo poderoso que se deu ao luxo de descansar no sétimo dia. Comumente, acredita-se ser ela uma teoria formulada pelo naturalista inglês Charles Darwin, na segunda metade do século 19. Sendo uma teoria, dependeria ainda de provas, argumentam os religiosos.

Não é bem assim – no tempo de Darwin a evolução já era coisa firmada e confirmada por meio de incontáveis descobertas da paleontologia. O grande mistério da época era como se dava a evolução – e Darwin solucionou-a com a idéia da seleção natural, esta sim, ainda uma teoria não confirmada cientificamente. Darwin hesitou muito tempo em publicar seu trabalho, certo de que ele provocaria reações da Igreja. Isso realmente aconteceu e embora hoje pareçam hilariantes os acalorados debates havidos na época a respeito dessa controvérsia, ela ressurgiu nos anos recentes, sobretudo nos Estados Unidos, onde se tenta obrigar as escolas a ensinarem, junto com a evolução, a crença religiosa de que todos os seres vivos foram criados por deus, numa tacada só.

O biólogo Richard Dawkins tem sido um dos mais ardorosos participantes dessa batalha, embora não seja exatamente um americano. Na verdade é difícil definir o que ele é – nasceu em Nairobi, no Quênia, em 1941, cresceu na Inglaterra, formou-se na consagrada Universidade de Oxford, deu aulas em Berkeley, nos Estados Unidos, e atualmente leciona Compreensão Pública da Ciência em Oxford. Parece uma disciplina estranha, mas deve ter sido criada especialmente para ele, um elegante expositor das realidades científicas para o público leigo, como atestam seus livros “O Relojoeiro Cego”, “A Escalada do Monte Improvável”, “O Capelão do Diabo” e “O Gene Egoísta”. Todos forneceram abundante munição para a guerra contra os defensores do desígnio divino. Em seu livro mais recente, ele abandona a posição defensiva normalmente adotada pelos cientistas e parte para o ataque contra os fundamentos da religião. Não por acaso, seu título é “Deus, um Delírio”.

São 520 páginas de argumentos apresentados de maneira tão clara e lógica quanto contundente. Impossível dar aqui um resumo competente deles – mas é possível ter uma idéia do conteúdo com os títulos dos capítulos que o compõem: “Um Descrente Profundamente Religioso”, “A hipótese de que Deus Existe”, “Por Que Quase com Certeza Deus não Existe”, “As Raízes da Religião”, “As Raízes da Moralidade – Por Que Somos Bons?”, “O que a Religião Tem de Mau?”, “Infância, Abuso e a Fuga da Religião”, “Uma Lacuna Muito Necessária?” O objetivo confesso desse livro – está assinalado na contracapa da edição brasileira – é não apenas provocar os religiosos convictos, mas principalmente levar os religiosos “por inércia” a pensar racionalmente a sua crença, trocando-a pelo orgulho ateu e pelo amor à ciência.

Vou limitar-me a apresentar alguns argumentos do capítulo “O Que a Religião Tem de Mau?” Nele Dawkins relata que muitos companheiros cientistas, convictos como ele de que deus não existe, procuram-no para argumentar: o que a religião tem de errado? Ela faz tanto mal assim para que devamos combatê-la? Por que não deixar para lá, como se faz com Touro e Escorpião, a energia dos cristais e coisas assim? Não são só bobagens inofensivas? E para completar: sua hostilidade não faz de você um ateu fundamentalista, tão fundamentalista quanto aqueles malucos do Cinturão Bíblico?”

Dawkins responde com poucas e boas palavras: “Os fundamentalistas acreditam que estão certos porque leram a verdade num livro sagrado, e sabem, desde o começo, que nada os afastará de sua crença (...) Pelo contrário, as coisas em que acredito, como cientista (a evolução, por exemplo), acredito não porque li num livro sagrado, mas porque estudei as provas.” E garante: “Quando um livro de ciência está errado, alguém acaba descobrindo o erro, e ele é corrigido nos livros subseqüentes. Isso, evidentemente, não acontece com os livros sagrados (...) Acreditamos na evolução porque as evidências a sustentam, e a abandonaríamos num piscar de olhos se surgissem novas evidências que a desmentissem. Nenhum fundamentalista de verdade diria uma coisa dessas”.

Ele recorre a numerosos relatos de acontecimentos ou práticas que confirmam suas convicções. No Afeganistão, sob o Talibã, a punição oficial para a homossexualidade é enterrar o acusado, vivo. Como esse suposto crime é um ato individual, praticado por adultos com mútuo consentimento, sem fazer mal a ninguém, “temos aqui a marca registrada do absolutismo religioso”. O Talibã, com certeza, baseia-se num grotesco fundamentalismo religioso. Mas, argumenta Dawkins logo em seguida, “meu próprio país não tem do que se vangloriar: o comportamento homossexual privado foi uma transgressão criminosa na Inglaterra até – inacreditavelmente – 1967”. E lembra que em 1954 o matemático britânico Alan Turing, candidato junto com John von Neumann ao título de pai do computador, cometeu suicídio depois de ser condenado pela contravenção de manter comportamento homossexual privado. Na verdade, argumenta o autor, ele deveria ter sido aclamado como herói nacional, pois foi a cabeça essencial do serviço que, durante a Segunda Guerra Mundial, desvendou os códigos utilizados pelo Exército Alemão para transmissão de suas ordens.

Mas ele tem histórias contemporâneas para justificar seu empenho em combater o fundamentalismo e tentar abalar a tranqüilidade dos religiosos não fundamentalistas. “Voltando ao Talibã americano, ouça Randall Terry, fundador da Operação Resgate, uma organização criada para intimidar médicos que se dispõem a fazer abortos: ‘Quando eu, ou pessoas como eu, estiver governando o país, é bom você fugir, porque vamos encontrá-lo, vamos julgá-lo e vamos executá-lo. Estou falando sério.” E depois, uma amostra de sua pregação ao público geral: “Quero que você se deixe levar por uma onda de intolerância. Sim, o ódio é bom (...) Nosso objetivo é uma nação cristã. Temos um dever bíblico, somos chamados por deus a conquistar este país. Não queremos tempos iguais. Não queremos pluralismo (...) Precisamos de uma nação cristã, construída na lei de deus, nos Dez Mandamentos. Sem pedidos de desculpa.”

Poderia pegar no livro mais uma dezena de casos parecidos, acontecidos no mundo cristão e no mundo muçulmano, utilizados por Dawkins para justificar sua má vontade com a fé religiosa. Castigos irracionais ao homossexualismo, à prática do aborto, ao casamento com crentes de outras religiões, a coisas indefiníveis como a blasfêmia – um crime que, afirma o autor, ainda consta das leis inglesas. Inacreditável. Daí a certeza do autor de que as religiões cada vez mais se tornam uma ameaça à sobrevivência da democracia política, da convivência pacífica, na sociedade, de idéias e crenças diferentes ou divergentes, e da pesquisa científica em geral.
Registro, apenas, que “Deus, um Delírio”, foi um sucesso de vendas, nos Estados Unidos e na Inglaterra, desde o lançamento, em 2006. Surpreende-me que também tenha conseguido elogios consagradores da imprensa. “Um ataque brilhante à onda de superstição que mais uma vez percorre o mundo pelo grande cientista que, ao longo de sua carreira, tem demonstrado a força da razão sóbria e incisiva para explicar a vida”, escreveu Johann Brown no Independent ; “Em ‘Deus, um Delírio”, a debilidade intelectual da crença religiosa é desnudada sem piedade, assim como os crimes cometidos em nome dela”, sentenciou The Times; “Este livro é um apelo declarado para que não nos acovardemos mais”, pregou The Guardian.

Deus, um Delírio
Richard Dawkins
Tradução de Fernanda Ravagnani
Quinta reimpressão
Cia. das Letras
Todos os outros livros de Richard Dawkins aqui citados foram editados pela Cia. Das Letras e podem ser encontrados nas livrarias.

Nem tudo que parece é

Está disponível na Internet um vídeo interessante, que merece ser visto e, sobretudo, ouvido. Informo, de saída, que é uma dessas obras aparentemente inverossímeis, que tratam de conspirações diabólicas, em que homens mal intencionados unem-se para ferrar a humanidade. Chama-se “Zitgeist, the movie”, sendo zitgeist uma palavra alemã que significa alguma coisa parecida com “o espírito do tempo”, ou “o tempo de uma cultura”. Tem três partes: uma trata das religiões, o Cristianismo em particular, e é o motivo que me leva a citá-lo; a segunda é sobre o atentado contra as torres de Nova York; e o terceiro, a união dos grandes banqueiros para dominar o mundo por meio do dinheiro, muitíssimo dinheiro que nós, otários, entregamos para eles. O autor é o americano Peter Joseph, que aparentemente trabalhou sozinho numa pesquisa gigantesca – para justificar as três partes da história, ele apresenta um rol de obras consultadas portentoso. Peter expõe sucintamente seu objetivo: inspirar as pessoas a olharem o mundo de uma perspectiva mais crítica e entenderem que, muitas vezes, coisas que elas acham que são, na verdade não são. Convém, insisto, aplicar esse mandamento ao próprio filme que o anuncia.

Sobre as religiões, ele começa afirmando que todas descendem da egípcia adoração do deus Orus (o Sol), e cita uma série de coincidências de que, confesso, jamais ouvira falar – e pretendo eu próprio pesquisar para comprovar sua veracidade, atento à advertência feita pelo autor: não basta dar uma olhada rápida no Google, é preciso malhar nas bibliotecas. Todas têm um deus nascido em 25 de dezembro, de uma mãe virgem, sob a luz de uma estrela gigantesca, começaram a se revelar aos 14 anos, iniciaram sua pregação às gentes aos 30, tinham doze seguidores (ou doze irmãos), foram mortos e ressuscitaram. Compõem esse rol de superdotados o já citado Orus egípcio, Athis, da Frigia, Krishna, da Índia, Dionísios, da Grécia, Mitra, da Pérsia, e o nosso Jesus.

De onde surgiram essas coincidências? Da Astrologia, garante Peter. 25 de dezembro é o momento em que Sirius, a maior estrela do firmamento, brilha com toda a intensidade. Os números 12, 14, 30 têm lá seus significados especiais. Até a cruz, tão representativa do Cristianismo, vem da Astrologia, que divide o círculo celeste em quatro partes com duas linhas retas que se cruzam. Tudo isso está minuciosamente explicado e justificado e é impossível resumir aqui. Nem vale à pena.

O filme é interessante de ver, é daqueles que não dá folga ao espectador, desenvolve-se sempre em alta velocidade e é preciso estar atento para não perder as informações e os comentários, muitas vezes jocosos. O capítulo das religiões, por exemplo, começa com o narrador citando que deus escreveu suas leis em duas pedras, ameaçou os que as desrespeitassem uma vez sequer com a tortura infinita de um local quente, cheio de fogo. Enquanto ele fala, sucedem-se em rápida seqüência, na tela, imagens de Moisés com as tábuas dos mandamentos, os judeus aproveitando a ausência do líder para adorar um bezerro de ouro, o inferno fumegante e, para encerrar, uma mensagem curta que ocupa toda a tela: deus ama você.

Veja em Zeitgeist e procure o site do Peter, com todas as explicações necessárias, e uma infinidade de comentários a favor e contra. Divirta-se.