QUESTÃO DE ÊNFASE
Susan Sontag
Tradução de Rubens Figueiredo.
São Paulo, Companhia das Letras, 2005
São 41 textos, publicados num período de vinte anos, divididos em três partes: “Ler”, dedicada a livros e escritores; “Ver”, que trata das artes visuais e dos espetáculos; na terceira, “Lá e aqui”, exibe-se a extraordinária versatilidade dessa intelectual americana que nunca aceitou separar “a vida contemplativa” da “vida ativa”: uma mistura de lembranças de viagens, dos momentos de isolamento criativo, um relato da loucura que foi dirigir a peça Esperando Godot, de Samuel Becket, na Sarajevo sitiada durante a guerra da Bósnia. Feito a que ela apresentou uma justificativa: “Cultura, cultura séria, é uma expressão da dignidade humana”.
Na primeira parte, é impossível para nós, brasileiros, ignorar o ensaio de 14 páginas dedicado ao livro Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Além de reservar-lhe tão grande espaço, a escritora brinda-o com elogios consagradores: “È, pelo visto, um desses livros arrebatadoramente originais, radicalmente céticos, que sempre impressionarão os leitores com a força de uma descoberta particular. É pouco provável que soe como um grande elogio dizer que esse romance, escrito mais de um século atrás, parece bem... moderno.” Sontag espanta-se de que tal escritor seja tão pouco conhecido no mundo, e sobretudo que seja tão pouco lido nos países sul-americanos, “como se ainda fosse difícil digerir o fato de que o maior romancista produzido pela América Latina tenha escrito em português e não em espanhol”.
Em carta póstuma, dirigida ao argentino Jorge Luís Borges, por um triz não caiu em contradição, ao lembrar o que dissera em entrevista concedida antes da morte do escritor: “Não existe hoje um escritor vivo mais importante para os outros escritores do que Borges. Muitos diriam que ele é o maior escritor vivo hoje (...) Muito poucos escritores de hoje não aprenderam algo com ele ou não o imitaram.”
O fato é que ela percorre com desenvoltura e graça grande variedade de territórios. O cinema, depois de quase cem anos acumulando glórias, parece-lhe afundar-se “num declínio irreversível e degradante”. Sobre os dançarinos observou, argutamente: “Toda vez que parabenizei um amigo ou conhecido que é dançarino por sua excelente apresentação – e incluo Baryshnikov –, ouvi antes de tudo uma desolada ladainha de erros cometidos: perde-se uma batida, um pé não ficou apontado na posição correta, houve um ligeiro escorregão numa complicada manobra com o par (...) Em nenhuma outra arte se pode encontrar um abismo comparável entre aquilo que o mundo pensa de um astro e aquilo que o astro pensa a respeito de si”. Sobre a ópera de Wagner, escreveu: “Observou-se desde o início que ouvir Wagner produzia um efeito semelhante a consumir psicotrópicos: ópio, disse Baudelaire, álcool, disse Nietzsche”. E concluiu, arrasadora: “Os altos valores redentores e aliciantes que Wagner acreditava expressar em suas obras foram desacreditados de vez (devemos isso à ligação histórica entre a ideologia wagneriana e o nazismo). Poucos cogitam ainda, como fizeram gerações de admiradores e de tementes de Wagner, acerca do que suas óperas dizem. Agora Wagner é apenas desfrutado ... como uma droga.”
Sobre a ópera em geral, observou: “Todas as artes feitas com música – porém, mais do que qualquer outra, a ópera – aspiram à experiência do êxtase”. O mundo da fotografia oferece-lhe a oportunidade para discorrer sobre o eterno conflito homem x mulher: “Queira ou não, um livro de fotos de mulheres terá de levantar a questão das mulheres – não existe nenhuma equivalente ‘questão dos homens’. À diferença das mulheres, os homens não são uma obra em andamento”.
E finalmente, a certeza que extraiu do exercício de seu trabalho: “Aí está a grande diferença entre ler e escrever. Ler é uma vocação, uma habilidade na qual, mediante a prática, certamente nos tornamos mais aptos. O que acumulamos como escritores são sobretudo incertezas e angústias.”
Publicado originalmente em D.O. Leitura, março de 2005
sábado, 5 de setembro de 2009
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