segunda-feira, 11 de maio de 2009

As igrejas e os deuses sob ataque II

Nos últimos quinhentos anos, sobretudo, cada vez que a ciência fez uma descoberta importante e inovadora, precisou enfrentar resistências das igrejas, as cristãs em particular. No final do século 15, começo do 16, o astrônomo polonês Nicolau Copérnico, sendo ele próprio um servidor do Vaticano, guardou até a morte os originais de seu livro De revolutionibus orbium coelestium (Das revoluções do orbe celeste) no qual cálculos minuciosos e precisos atestavam que a Terra gira ao redor do Sol, e não o contrário, como se acreditava. Com medo da Inquisição, mandou imprimi-lo na Alemanha protestante e reza a lenda que, ao receber o primeiro exemplar das mãos de um mensageiro enviado às pressas, sequer teve tempo de folheá-lo – morreu instantaneamente. A Igreja Católica, na verdade, não lhe deu grande importância, no momento – mas na Alemanha protestante Martinho Lutero trovejou: “A Bíblia diz que Josué mandou o Sol e a Lua pararem no céu, e não a Terra”. Referia-se ao episódio em que os judeus fugitivos do Egito, agora liderados por Josué, o substituto do patriarca Moisés, lutaram até o fim do dia para conquistar a cidade de Gabom na terra prometida e receberam de Jeová a dádiva de mais algumas horas de luz para consolidar a vitória.

Nos anos seguintes, o italiano Galileu Galilei, muito menos discreto do que Copérnico, fez um carnaval com a teoria heliocêntrica, construiu um telescópio e conseguiu ver quatro minúsculos corpos luminosos girando em torno de Júpiter, e não da Terra. Os sábios da Inquisição sequer concordaram em olhar pelo telescópio, como ele os desafiou – e não fosse Galileu um amigo do papa, teria acabado na fogueira, como Giordano Bruno. Quando completou seus cálculos, Copérnico recebeu de um assistente, tão bom matemático quanto ele, uma observação de surpresa: “Se for assim, Vênus terá fases, como a Lua”. Ao que ele respondeu, sabiamente: “Um dia o bom deus proverá ao homem meios para comprovar isso”. Além de Galileu, muitos outros cientistas, como Johanes Kepler, atestaram que os cálculos de Copérnico estavam corretos, e tinham os telescópios, cada vez mais precisos e poderosos, para o confirmar. Mas só em 1822 a Igreja, discretamente, retirou o De revolutionibus do Index de obras proibidas.

Continua assim nos nossos tempos – a Igreja combate o uso da camisinha nas relações sexuais para prevenir o contágio pela Aids, recusa as pesquisas com células tronco, é contra o aborto, em qualquer circunstância. Em todos esses anos, os cientistas tiveram enorme dificuldade para defender suas descobertas contra esse obscurantismo religioso. Muitos porque eram, eles próprios, crentes em deus. Mas a maioria por receio de afrontar uma opinião pública avassaladoramente submissa às ordenações dos sacerdotes – cristãos católicos ou protestantes, maometanos, hinduístas e o que mais exista em matéria de crença na divindade.

Essa realidade, porém, começa a mudar. Já temos no Brasil, devidamente traduzidos do inglês, uma meia dúzia de livros produzidos na Inglaterra e, principalmente, nos Estados Unidos, em que cientistas de renome dispõem-se não apenas a defender as posições da ciência, mas a atacar com surpreendente aspereza o obscurantismo religioso. Fazem isso não apenas para defender as verdades científicas, mas como um alerta para os perigos que corre a civilização, com a possibilidade de que algum político submisso a esses mandamentos religiosos chegue ao poder. No caso específico, referem-se aos Estados Unidos, “a única superpotência mundial da atualidade, perto de ser dominada por eleitores que acreditam que o universo inteiro começou depois da domesticação do cachorro”. Sam Harris, que escreveu essa frase áspera no pequeno livro “Carta a uma nação cristã”, é o mais implacável desses autores. Logo de saída, cita uma enfiada de dados revelados por uma pesquisa do Instituto Gallup: 53% dos americanos são criacionistas, o que significa que apesar de um século inteiro de descobertas científicas que atestam como é antiga a vida na Terra, e mais antigo ainda nosso planeta, acreditam que o cosmos inteiro foi criado há seis mil anos.
“Os que têm o poder de eleger presidentes, deputados e senadores – e muitos dos que são eleitos – acreditam que os dinossauros sobreviveram ao dilúvio, junto com seus pares, na arca de Noé (...) e que os primeiros membros da nossa espécie foram modelados a partir do barro e do hálito divino, em um jardim com uma cobra falante, pela mão de um deus invisível”. Esses crentes, diz Harris citando, ainda, a pesquisa Gallup, “não se preocupam com o destino da civilização”, pois “nada menos do que 44% da população americana está convencida de que Jesus vai voltar para julgar os vivos e os mortos em algum momento dos próximos 50 anos”. Lembra que a profecia bíblica afirma que Jesus voltará à Terra só depois que as coisas derem “terrivelmente errado; portanto, não é exagero dizer que se Londres, Sidney ou Nova York de repente virarem uma bola de fogo, no centro de uma explosão nuclear, uma porcentagem significativa da população americana veria um lado auspicioso nisso, pois a melhor coisa que pode acontecer ao mundo está prestes a se realizar: a volta de Jesus Cristo”.

Há muito que meditar, a partir da argumentação de Sam Harris e de seus parceiros Christopher Hitchens e Richard Dawkins. Algo de novo e surpreendente parece estar no ar. Que não se trata apenas de excentricidades de jovens buliçosos atesta-o o fato de que o livro de Dawkins, que comentarei proximamente, recebeu uma arrebatadora e elogiosa definição do crítico do jornal Independent: “Um ataque brilhante à onda de superstição que mais uma vez percorre o mundo, pelo grande cientista que, ao longo de sua carreira, tem demonstrado a força da razão sóbria e incisiva para explicar a vida”. Para um jornal americano chamar a crença religiosa de superstição, é sinal de que as coisas começam a mudar radicalmente.

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