Nos tempos modernos, a mais feroz disputa entre ciência e religião vem sendo travada em torno da evolução das espécies pela seleção natural. Ela põe por terra a crença do cristianismo e do judaísmo sobre a criação do mundo e dos seres que o habitam em uma semana, por um deus todo poderoso que se deu ao luxo de descansar no sétimo dia. Comumente, acredita-se ser ela uma teoria formulada pelo naturalista inglês Charles Darwin, na segunda metade do século 19. Sendo uma teoria, dependeria ainda de provas, argumentam os religiosos.
Não é bem assim – no tempo de Darwin a evolução já era coisa firmada e confirmada por meio de incontáveis descobertas da paleontologia. O grande mistério da época era como se dava a evolução – e Darwin solucionou-a com a idéia da seleção natural, esta sim, ainda uma teoria não confirmada cientificamente. Darwin hesitou muito tempo em publicar seu trabalho, certo de que ele provocaria reações da Igreja. Isso realmente aconteceu e embora hoje pareçam hilariantes os acalorados debates havidos na época a respeito dessa controvérsia, ela ressurgiu nos anos recentes, sobretudo nos Estados Unidos, onde se tenta obrigar as escolas a ensinarem, junto com a evolução, a crença religiosa de que todos os seres vivos foram criados por deus, numa tacada só.
O biólogo Richard Dawkins tem sido um dos mais ardorosos participantes dessa batalha, embora não seja exatamente um americano. Na verdade é difícil definir o que ele é – nasceu em Nairobi, no Quênia, em 1941, cresceu na Inglaterra, formou-se na consagrada Universidade de Oxford, deu aulas em Berkeley, nos Estados Unidos, e atualmente leciona Compreensão Pública da Ciência em Oxford. Parece uma disciplina estranha, mas deve ter sido criada especialmente para ele, um elegante expositor das realidades científicas para o público leigo, como atestam seus livros “O Relojoeiro Cego”, “A Escalada do Monte Improvável”, “O Capelão do Diabo” e “O Gene Egoísta”. Todos forneceram abundante munição para a guerra contra os defensores do desígnio divino. Em seu livro mais recente, ele abandona a posição defensiva normalmente adotada pelos cientistas e parte para o ataque contra os fundamentos da religião. Não por acaso, seu título é “Deus, um Delírio”.
São 520 páginas de argumentos apresentados de maneira tão clara e lógica quanto contundente. Impossível dar aqui um resumo competente deles – mas é possível ter uma idéia do conteúdo com os títulos dos capítulos que o compõem: “Um Descrente Profundamente Religioso”, “A hipótese de que Deus Existe”, “Por Que Quase com Certeza Deus não Existe”, “As Raízes da Religião”, “As Raízes da Moralidade – Por Que Somos Bons?”, “O que a Religião Tem de Mau?”, “Infância, Abuso e a Fuga da Religião”, “Uma Lacuna Muito Necessária?” O objetivo confesso desse livro – está assinalado na contracapa da edição brasileira – é não apenas provocar os religiosos convictos, mas principalmente levar os religiosos “por inércia” a pensar racionalmente a sua crença, trocando-a pelo orgulho ateu e pelo amor à ciência.
Vou limitar-me a apresentar alguns argumentos do capítulo “O Que a Religião Tem de Mau?” Nele Dawkins relata que muitos companheiros cientistas, convictos como ele de que deus não existe, procuram-no para argumentar: o que a religião tem de errado? Ela faz tanto mal assim para que devamos combatê-la? Por que não deixar para lá, como se faz com Touro e Escorpião, a energia dos cristais e coisas assim? Não são só bobagens inofensivas? E para completar: sua hostilidade não faz de você um ateu fundamentalista, tão fundamentalista quanto aqueles malucos do Cinturão Bíblico?”
Dawkins responde com poucas e boas palavras: “Os fundamentalistas acreditam que estão certos porque leram a verdade num livro sagrado, e sabem, desde o começo, que nada os afastará de sua crença (...) Pelo contrário, as coisas em que acredito, como cientista (a evolução, por exemplo), acredito não porque li num livro sagrado, mas porque estudei as provas.” E garante: “Quando um livro de ciência está errado, alguém acaba descobrindo o erro, e ele é corrigido nos livros subseqüentes. Isso, evidentemente, não acontece com os livros sagrados (...) Acreditamos na evolução porque as evidências a sustentam, e a abandonaríamos num piscar de olhos se surgissem novas evidências que a desmentissem. Nenhum fundamentalista de verdade diria uma coisa dessas”.
Ele recorre a numerosos relatos de acontecimentos ou práticas que confirmam suas convicções. No Afeganistão, sob o Talibã, a punição oficial para a homossexualidade é enterrar o acusado, vivo. Como esse suposto crime é um ato individual, praticado por adultos com mútuo consentimento, sem fazer mal a ninguém, “temos aqui a marca registrada do absolutismo religioso”. O Talibã, com certeza, baseia-se num grotesco fundamentalismo religioso. Mas, argumenta Dawkins logo em seguida, “meu próprio país não tem do que se vangloriar: o comportamento homossexual privado foi uma transgressão criminosa na Inglaterra até – inacreditavelmente – 1967”. E lembra que em 1954 o matemático britânico Alan Turing, candidato junto com John von Neumann ao título de pai do computador, cometeu suicídio depois de ser condenado pela contravenção de manter comportamento homossexual privado. Na verdade, argumenta o autor, ele deveria ter sido aclamado como herói nacional, pois foi a cabeça essencial do serviço que, durante a Segunda Guerra Mundial, desvendou os códigos utilizados pelo Exército Alemão para transmissão de suas ordens.
Mas ele tem histórias contemporâneas para justificar seu empenho em combater o fundamentalismo e tentar abalar a tranqüilidade dos religiosos não fundamentalistas. “Voltando ao Talibã americano, ouça Randall Terry, fundador da Operação Resgate, uma organização criada para intimidar médicos que se dispõem a fazer abortos: ‘Quando eu, ou pessoas como eu, estiver governando o país, é bom você fugir, porque vamos encontrá-lo, vamos julgá-lo e vamos executá-lo. Estou falando sério.” E depois, uma amostra de sua pregação ao público geral: “Quero que você se deixe levar por uma onda de intolerância. Sim, o ódio é bom (...) Nosso objetivo é uma nação cristã. Temos um dever bíblico, somos chamados por deus a conquistar este país. Não queremos tempos iguais. Não queremos pluralismo (...) Precisamos de uma nação cristã, construída na lei de deus, nos Dez Mandamentos. Sem pedidos de desculpa.”
Poderia pegar no livro mais uma dezena de casos parecidos, acontecidos no mundo cristão e no mundo muçulmano, utilizados por Dawkins para justificar sua má vontade com a fé religiosa. Castigos irracionais ao homossexualismo, à prática do aborto, ao casamento com crentes de outras religiões, a coisas indefiníveis como a blasfêmia – um crime que, afirma o autor, ainda consta das leis inglesas. Inacreditável. Daí a certeza do autor de que as religiões cada vez mais se tornam uma ameaça à sobrevivência da democracia política, da convivência pacífica, na sociedade, de idéias e crenças diferentes ou divergentes, e da pesquisa científica em geral.
Registro, apenas, que “Deus, um Delírio”, foi um sucesso de vendas, nos Estados Unidos e na Inglaterra, desde o lançamento, em 2006. Surpreende-me que também tenha conseguido elogios consagradores da imprensa. “Um ataque brilhante à onda de superstição que mais uma vez percorre o mundo pelo grande cientista que, ao longo de sua carreira, tem demonstrado a força da razão sóbria e incisiva para explicar a vida”, escreveu Johann Brown no Independent ; “Em ‘Deus, um Delírio”, a debilidade intelectual da crença religiosa é desnudada sem piedade, assim como os crimes cometidos em nome dela”, sentenciou The Times; “Este livro é um apelo declarado para que não nos acovardemos mais”, pregou The Guardian.
Deus, um Delírio
Richard Dawkins
Tradução de Fernanda Ravagnani
Quinta reimpressão
Cia. das Letras
Todos os outros livros de Richard Dawkins aqui citados foram editados pela Cia. Das Letras e podem ser encontrados nas livrarias.
segunda-feira, 11 de maio de 2009
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