Mostrando postagens com marcador Política. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Política. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Paulistas e mineiros na política

Em 25 de fevereiro de 1919 o jurista paraibano Epitácio Pessoa, chefe da delegação brasileira na Conferência de Versalhes, que decidiria as reparações a serem pagas pela Alemanha às nações que a derrotaram na primeira guerra mundial, recebeu um telefonema do ministro (embaixador) brasileiro na França: de Paris ele lhe comunicava que o Partido Republicano, tendo em vista o falecimento do presidente da República eleito, o paulista Rodrigues Alves, e o mau estado de saúde do vice Delfim Moreira, mineiro, decidira lançar sua candidatura para a eleição em que seria escolhido o novo presidente. Epitácio agradeceu, mas mandou informar que, antes de regressar ao Brasil, viajaria à Itália, Bélgica e Estados Unidos, cujos governos o haviam convidado formalmente. Enquanto o candidato viajava tranquilamente, foi realizada a eleição aqui no Brasil – ele obteve cerca de 250 mil votos, contra 120 mil do adversário Rui Barbosa.
Em junho, o já presidente ainda estava em Washington e, pelo telégrafo, articulou a escolha do presidente da Câmara dos Deputados e do líder da bancada governista – o primeiro cargo ficou com um deputado mineiro, o segundo com um paulista. No fechado sistema político da chamada República Velha, que se estendeu da proclamação da República, em 1889, à revolução de 1930, coisas grotescas como essa não chegavam a surpreender. Mas merece destaque o cuidado por ele demonstrado com a escolha do presidente da Câmara e do líder da bancada: um mineiro e um paulista. Naquela época, Minas Gerais era o Estado mais populoso, e por isso mais influente politicamente. São Paulo vinha a seguir, compensando com o poder da crescente economia cafeeira o menor eleitorado. O Rio Grande do Sul vinha em um mais distante terceiro lugar. Os demais eram figurantes.
Há uma tendência a reduzir o sistema político daquele período a um férreo acerto entre mineiros e paulistas para tomar conta do poder. Na verdade, a política da República Velha foi uma permanente negociação entre lideranças fortes em seus Estados – e paulistas e mineiros estavam juntos no topo da pirâmide. O eleitorado tinha reduzida importância, ou talvez nenhuma importância, como fica evidente no episódio da eleição bissexta de Epitácio Pessoa. Os políticos paulistas haviam se destacado no movimento pela proclamação da República – a famosa Convenção de Itu ficou sendo o marco mais brilhante daquela pregação. Por isso, depois que o imperador Pedro II foi despachado para o exílio e cumpriu-se o desastrado período em que a Presidência da República foi exercida por dois militares, o poder voltou naturalmente para os civis.
E São Paulo emplacou três presidentes sucessivos: Prudente de Morais, Campos Salles e Rodrigues Alves. Foi Campos Salles, pelas mãos do governador (então chamado presidente) de São Paulo, Rodrigues Alves, quem estruturou o arcabouço do que viria a ser a Política dos Governadores: os resultados das eleições populares passaram a depender da anuência das casas legislativas, as Assembléias, nas eleições estaduais, e a Câmara dos Deputados, nas eleições federais. Isso levou inevitavelmente ao sistema de partido único – o poderoso Partido Republicano Federal, na verdade um amontoado de Partidos Republicanos estaduais. As divergências, quando se manifestavam, era dentro do partido oficial, e lá mesmo eram solucionadas, sempre pela negociação, pois uma eventual vitória de um dissidente jamais seria reconhecida pela Assembléia ou pela Câmara.
Rodrigues Alves encaminhou naturalmente a candidatura do mineiro Afonso Pena para a sua sucessão. Este, logo de saída, promoveu a assinatura do Convênio de Taubaté, estabelecendo a base do que seria a política econômica de seu governo, em torno do café e, aí sim, estabeleceu-se uma aliança Minas-São Paulo, formal, mas nem assim capaz de garantir aos dois Estados o controle permanente do processo político. Foi exatamente durante o governo de Afonso Pena que despontou uma poderosa liderança política, nem mineira, nem paulista, capaz de perturbar o panorama: o gaucho Pinheiro Machado. Que conseguiu as proezas de levar à presidência, primeiro o fluminense Nilo Peçanha e, depois o ministro da Guerra, marechal Hermes da Fonseca.
Mas quando Pinheiro Machado ensaiou lançar-se ele próprio candidato à sucessão do marechal, aí sim, Minas e São Paulo deram-se as mãos oficialmente, para colocar as coisas nos eixos. Foi para o governo o mineiro Wenceslau Braz, a política voltou à velha rotina e seu sucessor seria Rodrigues Alves, que morreu antes da posse e levou àquela sui generis eleição de Epitácio Pessoa. Que foi sucedido pelo mineiro Artur Bernardes, por sua vez sucedido pelo paulista Washington Luiz, que teve a infeliz idéia de tentar entregar o poder a outro paulista – Júlio Prestes. O problema não era ser outro paulista, mas ser um político ainda jovem, passando a perna na implacável raposa mineira Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, que aguardava sua vez. Minas aliou-se ao projeto oposicionista do gaucho Getúlio Vargas e embora o governo, como sempre, vencesse a eleição, a custa de muita fraude, não ficou com o poder: foi atropelado pela Revolução de 1930, que tudo mudou.
De 1930 a 1945 o Brasil teve um só presidente: o gaucho Getúlio Vargas. Os quatro primeiros anos como presidente provisório, comandante da revolução vitoriosa; outros três como presidente eleito indiretamente pelo Congresso Nacional; os outros oito como ditador incontrastado. Paulistas e mineiros participaram de todas essas fases, como ministros e altos funcionários do governo federal, mas não havia atividade política propriamente dita a exercer. Getúlio nomeou interventores para governarem todos os Estados, e assim fez nascer uma nova geração de lideranças que trabalharam em surdina, durante a ditadura, e desabrocharam para a luz do sol, quando se restabeleceu o regime democrático, em 1945. E então aconteceu o imprevisto: Minas, que fornecera a maior parte dos políticos e intelectuais adversários da ditadura, signatários de um notável manifesto, com centenas de assinaturas, defendendo o restabelecimento da democracia, voltou à antiga posição de liderança; São Paulo, que lutara de armas na mão contra a ditadura, ficou marginalizado.
Talvez seja porque, na memória política nacional, a Revolução Constitucionalista de 1932 ficou registrada mais como um movimento separatista do que democrático. O fato é que no novo sistema político formaram-se muitos partidos, mas apenas três realmente fortes: pela ordem de grandeza, o Partido Social Democrático, que reunia lideranças estaduais, algumas originadas ainda na República Velha, aliadas de Getúlio; a União Democrática Nacional, onde estavam os adversários do ditador; e o Partido Trabalhista Brasileiro, fundado pelo próprio Getúlio, fortíssimo no Rio Grande do Sul e figurante nos outros Estados.
Durante vinte anos, PSD e UDN alternaram-se no governo de Minas Gerais, rivais inconciliáveis, mas ali o PTB sempre foi pequeno. Em São Paulo, os três sempre foram insignificantes. A política estadual, nos mesmo vinte anos, foi dominada pelo interventor nomeado por Getúlio, Adhemar de Barros, nos primeiros dez anos, e por seu inimigo Jânio Quadros, nos outros dez. Minas emplacou um presidente da República, Juscelino Kubitschek, que fez um governo notável; São Paulo emplacou Jânio Quadros, que fez um governo catastrófico, embora durasse poucos meses. E assim, como aconteceu das outras vezes em que os políticos dos dois Estados se desuniram, a política nacional destrambelhou, e vieram vinte anos de ditadura militar, em que todos os políticos ficaram longe do poder.

A volta à democracia, enfim, foi uma conquista tenazmente batalhada ao longo desses vinte anos, e consagrou uma nova aliança política Minas e São Paulo, nas figuras exemplares de Tancredo Neves e Ulysses Guimarães. A dança das cadeiras recomeçou com o mineiro Tancredo Neves, que, como Rodrigues Alves, não chegou a assumir, e deixou a presidência para seu vice, José Sarney, nordestino como Epitácio. Na primeira eleição direta do período, deu outro nordestino, Fernando Collor, que foi cassado antes de completar o mandato, abrindo vaga para seu vice, o mineiro Itamar Franco. E então São Paulo, que na luta pela redemocratização fora pioneiro na mobilização da opinião pública, voltou aos tempos gloriosos do pós proclamação da República: dois presidentes paulistas vão governar o país por longos 16 anos seguidos: Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva.
Com certeza não se trata de outro acidente do destino: foi em São Paulo que se formaram os dois grandes partidos que desde a redemocratização dominam a cena política nacional, fortes em quase todos os Estados. Ali surgiu o novo movimento sindical, livre das amarras que no tempo do getulismo o tornavam dependente do poder público. Certamente, no Brasil já não se faz política pensando apenas, ou principalmente, em acomodar lideranças poderosas – agora o que conta é a opinião pública, principalmente. Não há mais política de governadores para reconhecer ou não resultados eleitorais.
Ainda assim, o velho enigma novamente se coloca, desta vez apenas para a oposição, mas com reflexo inevitável em todo o palco, e com muita possibilidade de ser apenas uma farsa, como ensinava o velho Marx, citando Hegel: Serra ou Aécio? Ou Serra e Aécio? Será possível Serra contra Aécio?
Continuando a interrogar a esfinge: estarão paulistas e mineiros unidos? E se estiverem, desta vez será bom ou mau para o Brasil?

Quem governa para quem

Quem governa para quem

Sem argumentos para refutar a carta aberta divulgada por Fernando Henrique Cardoso, o presidente da República recorreu a um dos seus bordões favoritos: “São pessoas acostumadas a governar o Brasil para 30 milhões de pessoas, nós estamos governando para 190 milhões de pessoas”. Esclarecimento necessário: não é que faltem argumentos para refutar Fernando Henrique – eles até abundam; apenas o presidente não sabe manuseá-los. Prefere repetir seus bordões.

Poderia registrar que as mais recentes pesquisas de intenção de voto informam que aqueles 30 milhões para quem Fernando Henrique e seus antecessores governaram estão, no momento, afinados com a reeleição – sinal de que esta não lhes parece algo assustador. E levar este artigo por esse caminho. Mas prefiro tomar outro rumo. Pego dois volumes do historiador Edgard Carone – A segunda República e A terceira República – para me abastecer de dados precisos. Vamos a eles.

Getúlio Vargas parte de Porto Alegre em direção ao Rio de Janeiro no dia 3 de outubro de 1930, à frente de uma força armada. No dia 24 os chefes do Exército organizam-se em uma Junta Governativa, depõem o presidente Washington Luís e tentam negociar a sua participação no novo poder que vai se organizar. Não há negócio a fazer – Getúlio assume o governo, ainda chamado provisório, no dia 3 de novembro. Poucos dias depois, o governo se torna definitivo e aqueles chefes militares caem no esquecimento.

É fácil imaginar que o novo presidente tivesse mil coisas para pensar e cuidar nesses primeiros dias tão conturbados. Pois já no discurso de posse, ele começou a governar também para os 160 milhões de brasileiros (naquele tempo com certeza não eram tantos) de que o atual presidente se julga o primeiro e único benfeitor: prometeu criar o Ministério do Trabalho, “destinado a superintender a questão social, o amparo e a defesa do operariado urbano e rural”. A promessa foi cumprida transcorridos escassos 23 dias: o Ministério foi criado e entregue a um ativo articulador da revolução, Lindolfo Collor, avô do nosso conhecido e deposto presidente Fernando Collor.

Getúlio não era um operário nem um retirante nordestino como o atual presidente, ao contrário, era um escolado integrante da elite branca de que fala sempre o governador Cláudio Lembo – governou o Rio Grande do Sul, foi deputado federal em várias legislaturas, ministro da Fazenda. Outra vez ao contrário de Lula, chegou ao poder pela força das armas sabendo muito bem o que ia fazer. E fez logo, inclusive na área social: à criação do Ministério seguiram-se, em rápida sucessão, a Lei dos Dois Terços, vigoroso ataque ao desemprego na área industrial – ela limitou o ingresso de trabalhadores imigrantes e obrigou empresas estrangeiras aqui estabelecidas e contratarem trabalhadores brasileiros. Depois vieram a regulamentação do trabalho feminino, com uma regra básica – trabalho igual, salário igual –, do trabalho infantil, a jornada de 8 horas diárias, as férias anuais de 15 dias úteis, os institutos de assistência e previdência social, a organização dos sindicatos. Os outros 30 milhões chiaram – o sindicato patronal dos bancos, por exemplo, em correspondência dirigida ao presidente, anunciava que, diante de tais medidas, “grandes bancos nacionais resolveram suprimir imediatamente grande parte, se não a maioria de suas agências”.

Bobagem, ninguém foi à falência. Mas os patrões resistiram bravamente às novidades. Tanto que o salário mínimo precisou esperar a instituição da ditadura do Estado Novo, em 1937, para ser instituído por decreto presidencial. Com essa facilidade, várias outras providências, igualmente assustadoras para os patrões, foram adotadas: criou-se a Justiça do Trabalho, fábricas com mais de 500 operários foram obrigadas a instalar refeitórios, criou-se o Serviço de Alimentação da Previdência Social (SAPS), que ensinava os operários a comerem direito e para isso instalou restaurantes populares. Nós, pobres jornalistas que viemos para Brasília na inauguração, em 1960, acabada a festança de abril passamos a fazer nossas refeições nesses restaurantes – o do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Ferroviários do Serviço Público (IAPFESP) era o melhor de todos.

Para coroar tudo isso, veio a Consolidação das Leis do Trabalho que, entre outras coisas, garantia aos trabalhadores estabilidade no emprego depois de dez anos trabalhando na mesma empresa. São, com certeza, medidas muito mais consistentes de amparo aos trabalhadores pobres do que o Fome Zero, que o atual presidente também anunciou no dia da posse, e seu substituto Bolsa Família. Aliás, nesse capítulo da consistência, o governo petista perde até para a ditadura militar – a criação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) no governo Castello Branco e a extensão da aposentadoria por idade aos trabalhadores rurais, no governo Emílio Médici, são dois exemplos.

Pelo menos em um campo, em todo caso, o atual governo trata melhor os trabalhadores do que esses dois antecessores: o da liberdade. Nos dois períodos citados a atividade política da categoria foi severamente reprimida, o Partido Comunista, que pretendia ser o PT da época foi posto na ilegalidade, houve prisões, tortura, mortes. Mas liberdade houve, plena e segura, nos governos de JK, Jango, Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique. Como se vê, nosso presidente, que pretende ser o único a governar para 190 milhões de brasileiros, não começou nada, nem foi mais longe do que ninguém – e pelo menos quanto ao primeiro caso, vai ficando numa distante rabeira.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Uma brasileira contra o nazismo

Aracy de Carvalho Guimarães Rosa é famosa no Brasil por ser a segunda mulher do escritor Guimarães Rosa. Em Israel, nos Estados Unidos, na Alemanha e em boa parte da Europa, ela é, também, reconhecida por muito mais do que isso. Conheceram-se em 1938, no consulado brasileiro em Hamburgo, onde ela trabalhava e ele chegou para ser cônsul adjunto. Conheceram-se, amaram-se e casaram-se, da forma como era possível, num Brasil que ainda não admitia o divórcio, e viveram felizes até a morte dele, em 1967 . Naquele ano entrou em vigor a circular secreta 1.127, da ditadura do Estado Novo, que restringia, praticamente proibia a entrada de judeus no Brasil. Na Alemanha, com a rápida ascensão dos nazistas ao poder, eles estavam sendo perseguidos de forma implacável e organizada, nos primórdios do que hoje chamamos O Holocausto. A fuga para o Brasil, assim, estava impedida.
Aracy, modesta funcionária sem garantias diplomáticas, empenhou-se bravamente em facilitar a vida dos que, apesar de tudo, procuravam o consulado brasileiro. Ignorou, por conta própria, a circular do governo ditatorial, e astutamente enfiava entre a papelada que o cônsul-geral devia assinar, diariamente, autorizações para entrada no Brasil. Fez mais: valendo-se de seu passaporte diplomático, conseguiu arrancar da pesada burocracia nazista atestados de residência para os fugitivos que, vindo de outras cidades do país, não teriam direito à atenção do consulado de Hamburgo. O cônsul Guimarães Rosa sabia desses esforços, apoiava a mulher, e por causa disso e de declarações feitas contra a regime nazista, chegou a ser denunciado às autoridades do Reich.
Em 1942, quando submarinos alemães afundaram navios brasileiros, o Brasil finalmente declarou guerra à Alemanha. Os funcionários da embaixada ficaram sob custódia por mais de quatro meses, em Baden Baden, até serem trocados por diplomatas alemães igualmente em custódia, em nosso país. O casal foi morar no Rio de Janeiro e Guimarães Rosa, já definitivamente seduzido pela literatura, publicou Sagarana em 1946. Continuou, porém, diplomata, ocupou vários cargos e recebeu missões igualmente importantes. Assim, só voltaria a publicar dez anos depois (Corpo de Baile e o monumental Grande Sertão – Veredas vieram a público em 1956). Viúva embora, Aracy continuou empenhada em defender os perseguidos políticos – durante a ditadura militar, abrigou em seu apartamento foragidos das forças da repressão, entre eles o cantor e compositor Geraldo Vandré.
Por tudo isso, ela é a única mulher citada no Museu do Holocausto, de Jerusalém, como um dos escassos 18 funcionários diplomáticos que ao longo da perseguição nazista se empenharam em ajudar judeus fugitivos (é a única funcionária consular, não cônsul ou embaixador, nessa relação). Ela ainda dá nome a um bosque do Keren Kayemet, nas redondezas da cidade, e seu nome está relacionado no Museu do Holocausto, em Washington. Todas essas informações, e muitas outras, estão no artigo “D. Aracy, o anjo de Hamburgo”, publicado na edição número 19, ano IV, da “Revista 18”, do Centro da Cultura Judaica de São Paulo, pelo jornalista e cientista político René D. Decol, filho de sobreviventes do Holocausto.
Por minha conta, acrescento mais essas. Durante anos o bibliófilo José Mindlin, guarda cuidadoso de numerosos originais de Guimarães Rosa, tentou publicar em livro os saborosos cartões postais que o escritor enviava às netas de Aracy, Beatriz e Vera, filhas de Eduardo, filho do primeiro casamento da mulher. Elas resistiam, achavam aqueles papéis coloridos e alegres coisa íntima, destinados apenas ao desfrute familiar. Persistente, sobretudo quando se trata de livros, Mindlin conseguiu a autorização das netas. Era necessária, também, a concordância dos herdeiros diretos do escritor, depositários dos direitos sobre sua obra e figura. Quem já tentou publicar alguma coisa de e sobre Guimarães Rosa sabe quanto a família é dura e relutante. Mindlin, em todo caso, conseguiu outra vitória.
“Ooó do Vovô!” veio a público, finalmente, em 2003. Parceria entre a Editora da Universidade de São Paulo (Edusp) e a Imprensa Oficial do Estado. Vera, psiquiatra em São Paulo, explica o título estranho do livro: “Demorei a falar (por pura preguiça, diziam), limitava-me a apontar para os objetos que queria pegar, chamando-os de ‘ooó’. Daí meu avô carinhosamente chamar-me de ‘ooó do vovô´. Nos cartões e nas anotações, ele recriava um universo completamente familiar para nós dois, reproduzindo sons, imagens, objetos e personagens, numa linguagem sedutora.”
Ao concordar com a publicação, a família Guimarães Rosa exigiu que constasse do livro a observação de que Vera e Beatriz não são netas sanguíneas do escritor.

Fazer a história possível

Edgar Morin é um respeitado intelectual francês com biografia comum aos da sua idade, sobretudo franceses: lutou na Segunda Guerra Mundial, filiou-se ao Partido Comunista, onde teve vida desconfortável, pois estava sempre disposto a questionar ordens e perguntar por quês e para quês. É sociólogo, antropólogo, historiador e filósofo. Em plena campanha eleitoral pela presidência da França, escreveu um artigo provocadoramente intitulado “Se eu fosse candidato”, do qual Clóvis Rossi deu pequena notícia na sua coluna na Folha de S.Paulo. Para um candidato, ainda que faz-de-conta, é um texto tão surpreendente quanto assustador.

De saída, alerta seus “eleitores” para o fato de que a França não vive isolada nem está dentro de um mundo imóvel. Ao contrário, integra-se a um sistema planetário, que “está condenado à morte ou à transformação – nossa época de transformações tornou-se uma transformação de época”. Sendo assim, esquiva-se de fazer as promessas comuns de candidatos presidenciais – saúde, educação, moradias, estradas, empregos. Em vez disso, pretende mostrar o caminho para uma Terra Pátria e uma Sociedade Mundo, com a reforma da Organização das Nações Unidas para suplantar a soberania absoluta dos Estados-nações, embora reconhecendo plenamente sua autoridade sobre tais problemas, “que não são de vida ou morte para o planeta”.

À Europa, especialmente, apresentaria um grande desafio: “Reformar sua própria civilização com o aporte moral e espiritual de outras civilizações; contribuir para um novo tipo de desenvolvimento para as nações africanas; regulamentar os preços dos produtos fabricados a custo mínimo com a exploração dos trabalhadores asiáticos; elaborar uma política comum de inserção dos imigrantes; enfim e sobretudo, abrir uma janela exemplar de paz, compreensão e tolerância”. Com tal firmeza que se propõe chegar até a uma intervenção em Darfour, Chechênia, Oriente Médio “para evitar a guerra de civilizações”.

À França não oferece um programa, inoperante em situações de mudanças, mas uma estratégia geral. Começaria com encontros entre parceiros sociais, um sobre emprego e salários, outro sobre aposentadorias. Depois viriam dois comitês: um para lutar contra as desigualdades, começando pela que envolve lucros e remunerações exageradas, de um lado, e insuficiências (como o nível e a qualidade de vida na base social), de outro; o segundo para reverter o desequilíbrio, agudizado depois de 1990, na relação capital-trabalho. Um terceiro comitê se ocuparia das questões ambientais e das transformações sociais e humanas que elas exigem.

Indicaria o caminho de uma “política de civilização” que restaurasse a solidariedade, fizesse recuar o egoísmo e reformasse “nossa sociedade e nossas vidas”. Afirma, a propósito: “Nossa civilização está em crise. Onde chegou, o bem-estar material não levou necessariamente o bem-estar mental (...) O desenvolvimento econômico não provocou o desenvolvimento moral.” Assim, ele criaria Casas de Fraternidade, nas cidades e bairros das metrópoles, como Paris, para socorrer os desvalidos em geral – e aqui apresenta uma série de questões que seria longo demais enumerar. Ele cita a necessidade de várias “desintoxicações” da sociedade, uma das quais a da publicidade, que torna sedutores produtos supérfluos.

No campo da educação, proporia reformas revolucionárias para acabar com a compartimentabilização do saber, que se aprofunda cada vez mais. Na verdade, essa é uma preocupação que Morin traz de longe e ocupa boa parte de sua obra e de seus escritos recentes. Enfim, considera que “a reforma da política, a reforma das formas de pensar, a reforma da sociedade, a reforma da vida se conjugarão para levar a uma metamorfose da sociedade. Os futuros radiosos estão mortos, mas abriremos caminho para um futuro possível.”

Com certeza Edgar Morin não pensa em vencer uma eleição, nem imagina que tais tarefas possam ocupar o tempo de um presidente da República, e aí está o que seu artigo, no meu entender, tem de assustador. Tudo o que ele indica é clara e urgentemente necessário, mas como fazer para dar conta de tantos e tão grandes desafios? Com seu espírito contestador, talvez tenha esquecido, já nos tempos de militante do PC, da muito citada frase de Marx, no “18 Brumário de Luís Bonaparte”: “Os homens fazem a própria história, mas nunca a fazem como querem.”

Se as águas chegarem lá

Os adversários da transposição do rio São Francisco têm argumentos sólidos e convincentes para sustentar sua causa. O engenheiro João Alves Filho, ex-governador de Sergipe, resumiu-os em quatro pontos básicos, em artigo publicado na Folha de S.Paulo: 1) a transposição não tem como objetivo salvar a população nordestina da seca, pois apenas uma pequeníssima parte da região semi-árida receberá a água para uso domiciliar; ela irá para o agronegócio, que a utilizará a preço altíssimo, o que inviabilizará sua condição de negócio, se ela não for subsidiada pelo governo, a vida inteira; 2) não há falta de água no Nordeste, ela existe em tal quantidade que daria para abastecer plenamente a população que ali vive; precisa ser tirada do fundo da terra, e isso também tem seu preço, menor, entretanto, do que aquele pago pela transposição do rio; 3) o Rio São Francisco está na UTI e a transposição poderá decretar sua morte; 4) Lula mentiu quando, para interromper a primeira greve de fome de dom Cappio, certamente com medo de perder a reeleição, prometeu discutir o assunto com ele, com a sociedade civil e com os movimentos sociais. Não fez nada disso.
O tiro final: uma parte apenas do dinheirão gasto com a transposição daria para implementar um amplo programa de construção de açudes, para regularizar o aproveitamento da águas das chuvas, abundante na região em certas partes do ano, e abrir poços que a tragam lá das profundezas.
A verdadeira questão que se coloca aí é aquela mesma que surgiu no começo do governo petista, quando foi criado o Bolsa Família: ele alivia a fome imediata, mas não resolve o problema verdadeiro, que é a exclusão social e econômica das populações beneficiadas. É claro que é mais urgente matar a fome e a sede daquela gente, mas também é claro que tanto o dinheiro do Bolsa Família quanto a água das cisternas permitirão, no máximo, mais conforto para que se perpetue a triste situação social, econômica e cultural ali vigente. Dar início ao aproveitamento das excepcionais condições de sol e calor ali reinantes para implantar uma sólida estrutura de produção de frutas, para as quais há mercados ávidos nos Estados Unidos e, sobretudo, na Europa, deve ser uma solução para o caso.
Lamentável é que as precárias condições em que se desenrola o processo político brasileiro imponham ao presidente da República a necessidade de mentir, para realizar seus projetos sem risco de perder o eleitorado que o consagrou ao longo dos anos; e que uma iniciativa, assim portentosa, talvez capaz de alterar profundamente as estruturas do país, como aconteceu nas décadas de 1930 e 1940, dependa exclusivamente da ação e dos dinheiros governamentais, enquanto os grandes interessados do mundo empresarial apenas aguardam que as águas cheguem lá – do mesmo modo que esperaram, naqueles anos distantes, que o aço saísse de Volta Redonda para as suas fábricas.

O verdadeiro semi-árido

Em artigo recente no O Estado de S. Paulo, Washington Novaes apresenta um resumo resumido do livro A Potencialidade do Semi-árido Brasileiro, do geólogo e hidrólogo piauiense Manoel Bonfim Ribeiro -- que trabalhou em projetos de irrigação, construiu açudes e adutoras e foi diretor da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco. Mais do que credenciado, portanto, para falar sobre a questão da água no Nordeste, em geral, e da discutida transposição das águas do Rio São Francisco. Como muitos cientistas, Ribeiro assegura que no semi-árido o problema não é de escassez mas de gestão. E cita uma enfiada de números de nos deixar de queixo caído, pelo menos a mim, de escasso conhecimento sobre essas questões.
O Nordeste tem 70 mil açudes, um a cada 14 quilômetros quadrados. É a região mais açudada do mundo. Nos 27 maiores desses açudes estão acumulados 21 bilhões de metros cúbicos de água, onze vezes a que faz os encantos da Baía da Guanabara, no Rio de Janeiro. Aqui ele se permite uma boutade e comenta: "O semi-árido é uma ilha cercada de água doce por todos os lados". Mas há mais: só nos oito grandes açudes do Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba, para onde serão levados 2 bilhões de metros cúbicos da água transposta do São Francisco, já se acumulam 12 bilhões de metros cúbicos de água pluvial. Dessa água estocada nos açudes, 30% se evaporam (o que vai acontecer, também, com certeza, com as águas da transposição). Mas há na região, ainda, a possibilidade de extrair 20 bilhões de metros cúbicos do subsolo (atualmente, extrai-se apenas 1 bilhão de metros cúbicos).
A pobreza do sem-árido, portanto, está no homem, não na terra, nem no clima -- e a conclusão não é minha, mas do autor. Nos homens, acrescento, pois é uma questão de falta de informação e conseqüente falta de conhecimento. Mas também de falta de vontade. Manoel Bonfim cita, a partir daí, uma enxurrada de riquezas que poderiam ser exploradas desde que solucionada adequadamente essa questão da água e do seu uso. Piscicultura ("pode-se multiplicar por dez a produção de peixes brasileira"), apicultura (cada colmeia, na região, produz de 80 a 100 quilos de mel por ano, enquanto na Europa conseguem-se modestos 20 a 30 quilos). Seguem-se a caprinocultura, caju e suas castanhas, de larga aceitação no exterior, umbu, cera da carnaúba, fibras vegetais como o caroá, sisal, algodão.
No prefácio, o "pai do Proálcool, professor J. W. Bautista Vidal, admira-se: "É como se Bonfim estivesse redescobrindo um novo Semi-Árido, mais verdadeiro que o anterior, fundamentado em peculiaridades pouco conhecidas, algumas únicas em todo o planeta". Nada indica, portanto, que a transposição das águas do São Francisco, sozinha, vá solucionar algum problema pois com ela ou sem ela, a verdadeira questão continuará em pé: a gestão. Ou melhor, a capacidade de buscar para todos os males as soluções mais simples, mais baratas, conseqüentemente mais adequadas e mais eficazes. Entra governo, sai governo, e fica a pergunta: poderá o Nordeste algum dia contar com essa simplicidade?
Almyr Gajardoni