sábado, 5 de setembro de 2009

O petróleo é do Lula

Em março de 1958 Jânio Quadros governava São Paulo e começava a campanha para a escolha de seu sucessor. Sem estar ligado a nenhum partido, formalmente ou espiritualmente, Jânio era apoiado por uma base aliada surrealista – a democracia cristã de Franco Montoro, o socialismo de Wilson Rahal e Cid Franco, dois partidos trabalhistas, o Nacional de Emílio Carlos e o Social de um líder tão insignificante que nem lembro seu nome, E a UDN, claro, de Abreu Sodré e Herbert Levy, mais encorpada. A base aliada havia imposto a candidatura do secretário da Fazenda, Carvalho Pinto, que havia feito um notável trabalho de arrumação das finanças do Estado, mas como candidato, valha-me deus... Perto dele, Dilma Roussef pode ser considerada uma demagoga das boas.

A campanha não deslanchava e convocou-se uma reunião de emergência para a casa de Emílio Carlos – a base pretendia dar um aperto em Jânio, para que começasse a se empenhar pessoalmente pela vitória. Emílio Carlos morava num casarão nos Jardins, com uma enorme porta de vidro fosco dando para a rua, da qual estava afastada uns 50 metros. Repórter novato de política, eu estava ali de plantão, esperando o fim do encontro para apurar as novidades. Não havia luz no alpendre, de modo que dava para enxergar os vultos das pessoas lá dentro, pelo vidro fosco, a gesticulação agitada, até identificar alguns deles, mas não dava para ouvir. Com a cumplicidade do motorista do carro oficial de Jânio, pulei o portão e fiquei encostado na porta, e ali sim, dava para ouvir tudo claramente, até porque eles discutiam em voz alta.

Queriam que Jânio comparecesse aos comícios que estavam sendo realizados com audiências ridículas. O governador foi peremptório: “A comícios de quinhentas pessoas não vou. Quinhentas pessoas eu reúno agora, batendo numa lata na Praça da Sé”. Era mais de meia-noite. Seguiu-se a discussão, entrou-se na estratégia da campanha – e a base achava indispensável botar uma pitada de nacionalismo na pregação. Afinal, a campanha do petróleo é nosso ainda ressoavam pelos ares, a Petrobrás já era uma realidade legal, embora claudicante como empresa, e o petróleo era nosso, graças ao monopólio que a oposição enxertara no projeto original de Getúlio Vargas, só para atrapalhar, pensavam eles. Jânio resistiu, achava que essa questão da exploração do petróleo pelo Estado estava fora de moda. Um dos representantes socialistas ousou contestá-lo, citando o exemplo do Iraque, que estava se tornando uma potência milionária. Jânio cortou-lhe a palavra rispidamente: “O Iraque, rapazinho, é outro problema. O Iraque tem petróleo e este país não tem.”

Meu coração gelou. O foca condenado ao plantão nas reuniões da madrugada estava consagrado. Nenhum político daquela época, nem mesmo Carlos Lacerda, teria coragem de declarar que o Brasil não tinha petróleo. Jânio, é claro, acreditava estar falando numa reunião fechada, sem a imprensa por perto (será que acreditava mesmo? Até hoje carrego essa dúvida atroz. Aquela ajuda que o motorista me deu para pular o portão e chegar ao alpendre não teria sido previamente combinada com o patrão?) Terminada a reunião, reuni as declarações rotineiras dos participantes, todos me garantiam que agora a campanha ia engrenar, e fui para a redação escrever a minha manchete sensacional. Naquele tempo a Folha era As Folhas: o matutino Folha da Manhã, o primeiro vespertino Folha da Tarde, e o segundo vespertino cheio de amenidades Folha da Noite.

A Folha da Manhã já estava sendo impressa. Os editores da Folha da Tarde não deram a menor bola para a minha matéria, o tchan deles era o noticiário de polícia. A Folha da Noite, que fechava ao meio-dia do dia seguinte, deu-lhe uma chamadinha na primeira página, mas isso não significava nada, pois era o nosso jornal clandestino, ninguém lia. A Folha da Manhã, o matutino quente mesmo, publicou-a num canto qualquer – afinal, era notícia velha, de dois dias atrás. E assim caminhou a campanha, com todo mundo certo de que seria uma barbada para Adhemar de Barros, o ex-governador e ex-interventor, simpático e sorridente, hábil nos palanques e no trato direto com os eleitores, que já governara o Estado duas vezes, e exibia três bandeiras espetaculares de suas passadas administrações: a construção do Hospital das Clínicas, o asfaltamento da rodovia Anhanguera, entre São Paulo e Campinas, e o asfaltamento da rodovia Anchieta, que liga São Paulo ao porto de Santos. Não chegava a 200 quilômetros de asfalto, mas era um portento.

Rolou a campanha, Jânio começou a participar dos comícios, a televisão era uma coisa muito secundária, e Carvalho Pinto começou a encorpar, apesar da escassa vocação para o trabalho de candidato. Graças à sua arrumação das finanças, Jânio tinha dinheiro para implementar o seu PAC, um formidável plano de asfaltamento de estradas, que transformou todo o Estado em um gigantesco canteiro de obras – o asfalto chegava a todos os cantos, ao mesmo tempo. Foi uma manobra de extrema argúcia estratégica – a nascente indústria automobilística começava a despejar fuscas, kombis, gordinis e aero-willys na praça, e os brasileiros começavam a comprá-los vorazmente.
Nossa equipe da reportagem política, eu, Cláudio Coletti, Enio Pesce e Roland Marinho Sierra viajávamos todos os fins de semana para o interior, acompanhando os três candidatos – Adhemar, Carvalho Pinto e Auro Moura Andrade, que concorria pelo poderoso PSD do presidente Juscelino Kubitschek, mas era um zero à esquerda em São Paulo. E começamos a descobrir que fora da capital, havia um verdadeiro deslumbramento com o programa do asfalto. O passeio de fim de semana das famílias agora proprietárias de um automóvel era reunir parentes e vizinhos e correr a estrada, em direção à capital, para ver onde o asfalto já chegara. Semana após semana, acompanhava-se o avanço das obras metro a metro. Era uma empolgação. Quando começamos a trazer essas impressões para a redação, quase apanhamos fisicamente – consideravam-nos janistas empedernidos, ou, quando a coisa engrossava mesmo, subornados pelo governo. Adhemar estava ali, com seu sorriso, a velha expressão carinhosa “meu povo”, barbadona.
Lembro que o Ênio Pesce fez um monte de apostas, nada a dinheiro, coisas do tipo raspar o bigode, carregar de cavalinho dando dez voltas na redação. Não havia pesquisas eleitorais (nem exames pré-natais, de modo que urna, barriga de mulher e cabeça de juiz eram, ainda, coisa para se conhecer só depois da apuração). Ênio ganhou todas as apostas. Carvalho Pinto deu uma lavada tão espetacular em Adhemar, que este desapareceu logo após o início da acachapante contagem dos votos, e até correu o boato de que se suicidara. Jânio, apesar da coragem de dizer que o Brasil não tinha petróleo, cresceu, chegou a presidente da República apesar de ser um entreguista notório. O petróleo, este sim, continuava nosso, e a Petrobrás até contratara um especialista americano para orientar as pesquisas. Logo, porém, descobriu-se que, na verdade, ele era um façanhudo espião da CIA, que aqui estava apenas para sabotar nossa política petrolífera – não era a toa que seu relatório final confirmava o palpite do Jânio, o Brasil não tinha petróleo.
O tempo correu, Jânio se elegeu e renunciou, passou o fugaz governo João Goulart, veio a ditadura – e finalmente alguém teve a coragem de reconhecer que o odiado Mister Link era apenas um honrado, discreto e competente geólogo que acertara na mosca – o Brasil realmente não tem petróleo – em terra. Coube ao presidente Ernesto Geisel, que não precisava de votos nem do apoio dos eleitores, a glória de descobri-lo abundante no fundo do mar, e a Petrobrás, de que ele fora presidente, tornou-se uma grande e respeitada empresa do ramo. Geisel, dizia-se, acertara os 13 pontos na loteria esportiva – a única de que dispúnhamos, na época, anos 1970. Lula, agora, com o pré-sal, acertou na mega-sena, muito mais endinheirada e encorpada.
Lembro tudo isso para constatar que o petróleo, finalmente, entra para valer na campanha eleitoral, provavelmente com o mesmo peso que teve o asfalto na paulista de 1958. E a oposição, que já se lambusara toda na condução do combate às malfeitorias cometidas no Senado, bisonhamente oferece a Lula a oportunidade de consagrar-se como o herói do nosso petróleo, assumindo ela própria a feição do malfeitor da CIA que, acreditou-se no passado, era o pacato Mister Link. Lula até vacilou, e admitiu, por um momento, suspender o regime de urgência para a tramitação dos projetos no Congresso. Mas caiu em si (ou alguém o induziu a isso, não importa) e voltou a insistir na urgência. A oposição, com certeza, vai insistir na cobrança de mais tempo, no desespero vai dificultar e atrasar as votações, e vai dar o mote mortal para a campanha do próximo ano. Não podemos esquecer que no segundo turno da eleição passada, Alckmin teve a maior dificuldade para lidar com as citações das passadas privatizações.
Em 1958, Jânio acertou ao falar mal do petróleo, pois tinha o asfalto escondido na algibeira. A oposição tem os telefones abundantes – mas isso ela já admitiu, em praça pública, foi um pecado, não uma glória.

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