segunda-feira, 11 de maio de 2009

Uma brasileira contra o nazismo

Aracy de Carvalho Guimarães Rosa é famosa no Brasil por ser a segunda mulher do escritor Guimarães Rosa. Em Israel, nos Estados Unidos, na Alemanha e em boa parte da Europa, ela é, também, reconhecida por muito mais do que isso. Conheceram-se em 1938, no consulado brasileiro em Hamburgo, onde ela trabalhava e ele chegou para ser cônsul adjunto. Conheceram-se, amaram-se e casaram-se, da forma como era possível, num Brasil que ainda não admitia o divórcio, e viveram felizes até a morte dele, em 1967 . Naquele ano entrou em vigor a circular secreta 1.127, da ditadura do Estado Novo, que restringia, praticamente proibia a entrada de judeus no Brasil. Na Alemanha, com a rápida ascensão dos nazistas ao poder, eles estavam sendo perseguidos de forma implacável e organizada, nos primórdios do que hoje chamamos O Holocausto. A fuga para o Brasil, assim, estava impedida.
Aracy, modesta funcionária sem garantias diplomáticas, empenhou-se bravamente em facilitar a vida dos que, apesar de tudo, procuravam o consulado brasileiro. Ignorou, por conta própria, a circular do governo ditatorial, e astutamente enfiava entre a papelada que o cônsul-geral devia assinar, diariamente, autorizações para entrada no Brasil. Fez mais: valendo-se de seu passaporte diplomático, conseguiu arrancar da pesada burocracia nazista atestados de residência para os fugitivos que, vindo de outras cidades do país, não teriam direito à atenção do consulado de Hamburgo. O cônsul Guimarães Rosa sabia desses esforços, apoiava a mulher, e por causa disso e de declarações feitas contra a regime nazista, chegou a ser denunciado às autoridades do Reich.
Em 1942, quando submarinos alemães afundaram navios brasileiros, o Brasil finalmente declarou guerra à Alemanha. Os funcionários da embaixada ficaram sob custódia por mais de quatro meses, em Baden Baden, até serem trocados por diplomatas alemães igualmente em custódia, em nosso país. O casal foi morar no Rio de Janeiro e Guimarães Rosa, já definitivamente seduzido pela literatura, publicou Sagarana em 1946. Continuou, porém, diplomata, ocupou vários cargos e recebeu missões igualmente importantes. Assim, só voltaria a publicar dez anos depois (Corpo de Baile e o monumental Grande Sertão – Veredas vieram a público em 1956). Viúva embora, Aracy continuou empenhada em defender os perseguidos políticos – durante a ditadura militar, abrigou em seu apartamento foragidos das forças da repressão, entre eles o cantor e compositor Geraldo Vandré.
Por tudo isso, ela é a única mulher citada no Museu do Holocausto, de Jerusalém, como um dos escassos 18 funcionários diplomáticos que ao longo da perseguição nazista se empenharam em ajudar judeus fugitivos (é a única funcionária consular, não cônsul ou embaixador, nessa relação). Ela ainda dá nome a um bosque do Keren Kayemet, nas redondezas da cidade, e seu nome está relacionado no Museu do Holocausto, em Washington. Todas essas informações, e muitas outras, estão no artigo “D. Aracy, o anjo de Hamburgo”, publicado na edição número 19, ano IV, da “Revista 18”, do Centro da Cultura Judaica de São Paulo, pelo jornalista e cientista político René D. Decol, filho de sobreviventes do Holocausto.
Por minha conta, acrescento mais essas. Durante anos o bibliófilo José Mindlin, guarda cuidadoso de numerosos originais de Guimarães Rosa, tentou publicar em livro os saborosos cartões postais que o escritor enviava às netas de Aracy, Beatriz e Vera, filhas de Eduardo, filho do primeiro casamento da mulher. Elas resistiam, achavam aqueles papéis coloridos e alegres coisa íntima, destinados apenas ao desfrute familiar. Persistente, sobretudo quando se trata de livros, Mindlin conseguiu a autorização das netas. Era necessária, também, a concordância dos herdeiros diretos do escritor, depositários dos direitos sobre sua obra e figura. Quem já tentou publicar alguma coisa de e sobre Guimarães Rosa sabe quanto a família é dura e relutante. Mindlin, em todo caso, conseguiu outra vitória.
“Ooó do Vovô!” veio a público, finalmente, em 2003. Parceria entre a Editora da Universidade de São Paulo (Edusp) e a Imprensa Oficial do Estado. Vera, psiquiatra em São Paulo, explica o título estranho do livro: “Demorei a falar (por pura preguiça, diziam), limitava-me a apontar para os objetos que queria pegar, chamando-os de ‘ooó’. Daí meu avô carinhosamente chamar-me de ‘ooó do vovô´. Nos cartões e nas anotações, ele recriava um universo completamente familiar para nós dois, reproduzindo sons, imagens, objetos e personagens, numa linguagem sedutora.”
Ao concordar com a publicação, a família Guimarães Rosa exigiu que constasse do livro a observação de que Vera e Beatriz não são netas sanguíneas do escritor.

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