domingo, 10 de maio de 2009

País sem memória

Estava com o cientista político Gildo Marçal Brandão, da Universidade de São Paulo, dando os últimos retoques em uma edição especial da revista História Viva sobre a esquerda no Brasil, que estamos preparando, quando me ocorreu uma pergunta inteiramente fora do contexto: “E o Josué de Castro? Sumiu. Ninguém fala mais dele.” Falamos nós, ali, um bom tempo, e o Gildo me garantiu: é o cientista político brasileiro mais citado no exterior. Ainda hoje.

Josué nasceu em Recife, em 1908. Formou-se médico, mas ao longo da vida exuberante ocupou-se do estudo de como o homem vive e sobrevive, sobretudo nas partes subdesenvolvidas da Terra. Por sinal, foi ele o primeiro a utilizar a palavra subdesenvolvimento para caracterizar os países pobres do mundo. Foi professor universitário de Geografia Humana e Antropologia, presidente do Conselho da Organização para Alimentação e Agricultura (FAO) da ONU, presidente da Associação Mundial da Luta contra a Fome, ganhou o Prêmio Roosevelt da Academia de Ciências Políticas dos Estados Unidos, o Prêmio Internacional da Paz, oficial da Legião de Honra da França, duas vezes indicado para o Prêmio Nobel da Paz, etc etc etc. Não vou ficar aqui citando todos os cargos que ocupou nem as honrarias que lhe concederam.

Notabilizou-se pelos estudos originalíssimos que fez sobre a fome, dos quais resultaram dois livros famosíssimos – Geografia da Fome e Geopolítica da Fome, dentro de uma bibliografia de 31 títulos, quase todos traduzidos para 25 idiomas. Com essa bagagem literária e especializado em tal tema, natural que tivesse uma ficha quilométrica nos arquivos dos órgãos da segurança pública. Embaixador do Brasil na ONU, em Genebra, foi incluído numa das primeiras listas de cassações produzida pelo golpe militar, em abril de 1964. Mas não se tratou apenas de suspender-lhe os direitos políticos: pesava contra ele uma ameaça de prisão, motivo pelo qual exilou-se em Paris, onde morreu em 1973, sonhando com o retorno: “Não se morre só de enfarte, ou de glomero-nefrite crônica... Morre-se também de saudade”. Talvez essa tenha sido a coisa mais vergonhosa cometida pela ditadura.

Foi elogiado e glorificado mundo afora, por cientistas, políticos, jornalistas, escritores, intelectuais como ele. Acho que o melhor elogio que recebeu foi o de Darcy Ribeiro, por sinal, outro grande brasileiro que vai ficando esquecido: “Josué é uma das pessoas que mais admirei. Eu digo mesmo que Josué é o homem mais inteligente e mais brilhante que eu conheci (...) O diabo é que me dá uma inveja enorme...”

Tive o privilégio de conhecer Josué de Castro em Brasília, deputado federal. Pois é. Talvez vocês, mais jovens, não acreditem: mas tivemos um dia um Congresso Nacional que tinha gente como Josué de Castro, Afonso Arinos, Santiago Dantas, Temperani Pereira, Guerreiro Ramos, Djalma Marinho, Aliomar Baleeiro, Oliveira Brito, Almino Afonso, Pedro Aleixo, Adauto Lúcio Cardoso, Raul Pilla, Luís Vianna...

Todos juntos, numa fornada só.

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