domingo, 10 de maio de 2009

Nosso primeiro coleguinha

Transcorreu em junho do ano passado o 198 aniversário da circulação do primeiro exemplar do primeiro jornal brasileiro – o Correio Braziliense, ou Armazém Literário, produzido, redigido, editado e impresso em Londres, mensalmente, por Hipólito da Costa, consagrado patrono da imprensa nacional. Gaúcho da colônia de Sacramento, hoje o Uruguai, nasceu em 25 de março de 1774. Viveu, portanto, no último quartel do Século das Luzes e foi, com certeza, o mais ardoroso iluminista brasileiro. Nas 175 edições do jornal sempre houve palavras em defesa da liberdade, sobretudo da liberdade de imprensa, e de condenação ao arbítrio e à opressão – a escravidão e a discriminação racial eram-lhe sobretudo odiosos.
Antes de iniciar essa empreitada, Hipólito passou dez meses nos Estados Unidos, enviado pelo governo português. Ali ligou-se à maçonaria e, por causa disso, de volta a Lisboa, foi preso pela Inquisição. Escapou, três anos depois, graças à ajuda do nobre inglês Augustus Frederick, duque de Sussex, irmão do rei Jorge IV. O duque era o chefão da maçonaria inglesa e, de certa forma, também da portuguesa. Refugiado em Londres, conseguiu, sempre com a ajuda do protetor, algo parecido com a cidadania inglesa que o colocou a salvo das perseguições da diplomacia lusitana.
Em 1808, um acontecimento notável mudou completamente a situação de Portugal, do Brasil e do próprio Hipólito: tangida pela chegada das tropas francesas, a corte portuguesa, sob proteção da poderosa esquadra inglesa, mudou-se para o Brasil. Assim, de repente, a apagada colônia ultramarina ganhou importância política, reconhecida internacionalmente. Foi grande o assanhamento nas principais chancelarias do velho continente, pois mesmo com o território português ocupado, a corte, e com ela o Império português, estavam a salvo – apesar da genialidade militar de seu comandante, o imperador Napoleão Bonaparte, o exército francês não tinha capacidade para atravessar o Atlântico e atacar o Brasil.
A corte, com o príncipe regente Dom João à frente, instalou-se no Rio de Janeiro. Veio para um Brasil atrasado, graças às variadas proibições impostas à colônia pela legislação portuguesa – não havia estabelecimentos industriais, a não ser os dedicados à produção do açúcar, e nem tipografias. Essa conjuntura inspirou Hipólito a criar o seu jornal. Autores consagrados como Sílvio Romero e Barbosa Lima Sobrinho consideram o Redator do Correio Braziliense (assim o próprio Hipólito se chamava, na terceira pessoa) um precursor e pregador da Independência. Na verdade, a sua linha política, se assim podemos dizer, estava centrada na luta pela elevação do status político do Brasil dentro do império português, a manutenção de sua unidade e a reforma da própria monarquia, colocando-a sob o controle de uma Constituição. O ideário do Iluminismo, sem dúvida.
Tão notável quanto o trabalho intelectual foi o trabalho físico desenvolvido pelo jornalista. Durante 14 anos (de junho de 1808 a dezembro de 1822) cuidou sozinho da “redação, edição e correspondência”, segundo suas palavras, de 175 edições pontualmente distribuídas. O número de páginas variava entre 72 e 140 (a edição de agosto de 1812, no entanto, chegou a 236). O meio mais rápido de comunicação, na época, era o navio a vela, mas apesar disso o Correio chegava sempre cheio de notícias sobre os principais governos europeus – Inglaterra, França, Rússia, Itália, Áustria, Alemanha, até a distante Suécia, Portugal e Espanha, sobretudo. Os sucessos e insucessos do exército de Napoleão na Rússia, por exemplo, foram seguidos passo a passo – bem como a fofocagem que cercou o casamento do imperador francês com Maria Luísa. Os novos livros, as descobertas científicas, números do comércio internacional, faziam do Correio um verdadeiro Armazém Literário.
Às vezes, parecia milagroso. A Carta de Ley de Dom João que promoveu o Brasil à condição de reino unido a Portugal e Algarves foi assinada no Rio de Janeiro em 16 de dezembro de 1815 e foi publicada, na íntegra, na edição de fevereiro de 1816. Como a viagem do Rio a Londres demorava, em média, 40 dias, Hipólito deve ter recebido o documento, na melhor das hipóteses, no fim de janeiro, época em que a edição devia estar pronta. É compreensível o esforço feito, pois esse documento de certa forma representava a vitória da sua pregação. Nos anos seguintes, no entanto, a situação deteriorou em Portugal, houve a revolução, instalaram-se as Cortes Constitucionais e, com elas, a pressão para que o já rei Dom João retornasse ao país, e o Brasil voltasse à condição de colônia. Isso encorajou a campanha pela independência, e o próprio rei, ao embarcar para a Europa, reconheceu a iminência da separação e aconselhou o filho, Dom Pedro, a colocar na sua cabeça a coroa do Brasil.
Em janeiro de 1822, finalmente, Hipólito reconhece que o reino unido tornara-se inviável e admite a independência. Em dezembro daquele ano, consumada a separação, despede-se dos leitores com uma lacônica nota de 16 linhas, justificando a retirada pelo fato de que, havendo liberdade de imprensa no Brasil, “as muitas gazetas, que se publicam nas suas principaes cidades, escusam este trabalho d`antes tão necessário”.
José Bonifácio, que com a independência tornara-se um dos mais importantes políticos brasileiros, chegou a nomeá-lo representante do Brasil independente na Inglaterra. Mas Hipólito nada chegou a fazer de prático, pois morreu menos de um ano depois. Tinha apenas 49 anos, e fez tudo isso.

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