Em dezembro de 1831 o pequeno veleiro HMS Beagle zarpou da Inglaterra, a duras penas, com destino ao hemisfério sul. O endereço era assim amplo porque o barco tinha uma missão especial: dominadora dos sete mares, a marinha britânica promovia viagens desse tipo, periodicamente, para fazer levantamentos das costas marítimas, em todos os continentes. As viagens eram longas – essa durou cinco anos – e era praxe convidar um cientista, em geral naturalistas e geólogos, para integrar a tripulação. No Beagle embarcou um jovem naturalista e geólogo, Charles Darwin, que, muitos anos mais tarde, provocaria uma verdadeira revolução científica, ao elaborar a teoria da evolução das espécies animais pela seleção natural.
Era grande a expectativa de Darwin pelo que encontraria nas terras tropicais. A primeira parada, rápida, uma espécie de aperitivo, foi na ilha de Fernando de Noronha. Depois, Salvador. O primeiro passeio pela mata, nos arredores da cidade, foi um deslumbramento. Ele anotou no seu diário: : “O deleite que se experimenta em momentos como esse confunde a mente: se o olho tenta seguir o vôo de uma colorida borboleta, ele é detido por uma árvore ou um fruto estranhos; se observando um inseto, pode-se esquecê-lo na estranha flor sobre a qual caminha; se estiver se voltando para admirar o esplendor do cenário, o caráter individual do primeiro plano toma a atenção.”
De Salvador o Beagle foi para o Rio de Janeiro. Ali o jovem cientista ficou três meses, viajou muito pelo interior do Estado do Rio de Janeiro, coletou plantas, flores e animais, freqüentou a sociedade, suas festas, jantares, concertos, bailes, hospedou-se em albergues pobres e miseráveis, alimentou-se em casas de pasto que lhe causaram repugnância, pela falta de higiene, e fixou uma imagem que carregaria pelo resto da vida: a natureza do grande país tropical era uma maravilha, algo inimaginável para um europeu; mas os seus habitantes ... Para começar, havia a escravidão – o diário está cheio de anotações indignadas a respeito de maus tratos que os proprietários propiciavam aos seus trabalhadores. Mas não era o principal. Na corte conheceu os brasileiros ricos, da alta sociedade, boa parte dos quais amealharam seus bens com o tráfico de escravos. Darwin ouviu-lhes as conversas, anotou suas idéias e convicções, e com elas espantou-se tanto quanto se espantara com as flores, as folhas, os insetos da floresta.
Veja-se, por exemplo, o que anotou no diário, na noite de 3 de julho: “É algo aterrador ouvir os crimes monstruosos que se cometem diariamente e escapam sem punição (...) Não importa o tamanho das acusações que possam existir contra um homem de posses, é seguro que em pouco tempo ele estará livre. Todos aqui podem ser subornados. Um homem pode tornar-se marujo ou médico, ou assumir qualquer outra profissão, se puder pagar o suficiente. Foi asseverado com gravidade por brasileiros que a única falha que eles encontraram nas leis inglesas foi a de não poderem perceber que as pessoas ricas e respeitáveis tivessem qualquer tipo de vantagem sobre os miseráveis e os pobres.”
Na despedida, mostrou uma ponta de desalento: “Se ao que a natureza concedeu aos Brasis o homem acrescesse seus justos e adequados esforços, de que país poderiam jactar-se seus habitantes! Mas onde a maioria está ainda em estado de escravidão e onde o sistema se mantém por todo um embargo da educação, fonte principal das ações humanas, o que se pode esperar a não ser que seja o todo poluído por sua parte?”
É espantoso verificar quão pouco as coisas mudaram – se é que mudaram – passados quase dois séculos de grande progresso e mutações na vida em sociedade. Nossos homens da elite continuam os mesmos, muito satisfeitos com seus privilégios, e nem se dão ao cuidado de resguardar as aparências. Vejam-se os últimos acontecimentos na Câmara dos Deputados, em Brasília, só para ficar em um caso exemplar. Mas há ainda todo o resto que conhecemos.
domingo, 10 de maio de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário