segunda-feira, 11 de maio de 2009

Uma brasileira contra o nazismo

Aracy de Carvalho Guimarães Rosa é famosa no Brasil por ser a segunda mulher do escritor Guimarães Rosa. Em Israel, nos Estados Unidos, na Alemanha e em boa parte da Europa, ela é, também, reconhecida por muito mais do que isso. Conheceram-se em 1938, no consulado brasileiro em Hamburgo, onde ela trabalhava e ele chegou para ser cônsul adjunto. Conheceram-se, amaram-se e casaram-se, da forma como era possível, num Brasil que ainda não admitia o divórcio, e viveram felizes até a morte dele, em 1967 . Naquele ano entrou em vigor a circular secreta 1.127, da ditadura do Estado Novo, que restringia, praticamente proibia a entrada de judeus no Brasil. Na Alemanha, com a rápida ascensão dos nazistas ao poder, eles estavam sendo perseguidos de forma implacável e organizada, nos primórdios do que hoje chamamos O Holocausto. A fuga para o Brasil, assim, estava impedida.
Aracy, modesta funcionária sem garantias diplomáticas, empenhou-se bravamente em facilitar a vida dos que, apesar de tudo, procuravam o consulado brasileiro. Ignorou, por conta própria, a circular do governo ditatorial, e astutamente enfiava entre a papelada que o cônsul-geral devia assinar, diariamente, autorizações para entrada no Brasil. Fez mais: valendo-se de seu passaporte diplomático, conseguiu arrancar da pesada burocracia nazista atestados de residência para os fugitivos que, vindo de outras cidades do país, não teriam direito à atenção do consulado de Hamburgo. O cônsul Guimarães Rosa sabia desses esforços, apoiava a mulher, e por causa disso e de declarações feitas contra a regime nazista, chegou a ser denunciado às autoridades do Reich.
Em 1942, quando submarinos alemães afundaram navios brasileiros, o Brasil finalmente declarou guerra à Alemanha. Os funcionários da embaixada ficaram sob custódia por mais de quatro meses, em Baden Baden, até serem trocados por diplomatas alemães igualmente em custódia, em nosso país. O casal foi morar no Rio de Janeiro e Guimarães Rosa, já definitivamente seduzido pela literatura, publicou Sagarana em 1946. Continuou, porém, diplomata, ocupou vários cargos e recebeu missões igualmente importantes. Assim, só voltaria a publicar dez anos depois (Corpo de Baile e o monumental Grande Sertão – Veredas vieram a público em 1956). Viúva embora, Aracy continuou empenhada em defender os perseguidos políticos – durante a ditadura militar, abrigou em seu apartamento foragidos das forças da repressão, entre eles o cantor e compositor Geraldo Vandré.
Por tudo isso, ela é a única mulher citada no Museu do Holocausto, de Jerusalém, como um dos escassos 18 funcionários diplomáticos que ao longo da perseguição nazista se empenharam em ajudar judeus fugitivos (é a única funcionária consular, não cônsul ou embaixador, nessa relação). Ela ainda dá nome a um bosque do Keren Kayemet, nas redondezas da cidade, e seu nome está relacionado no Museu do Holocausto, em Washington. Todas essas informações, e muitas outras, estão no artigo “D. Aracy, o anjo de Hamburgo”, publicado na edição número 19, ano IV, da “Revista 18”, do Centro da Cultura Judaica de São Paulo, pelo jornalista e cientista político René D. Decol, filho de sobreviventes do Holocausto.
Por minha conta, acrescento mais essas. Durante anos o bibliófilo José Mindlin, guarda cuidadoso de numerosos originais de Guimarães Rosa, tentou publicar em livro os saborosos cartões postais que o escritor enviava às netas de Aracy, Beatriz e Vera, filhas de Eduardo, filho do primeiro casamento da mulher. Elas resistiam, achavam aqueles papéis coloridos e alegres coisa íntima, destinados apenas ao desfrute familiar. Persistente, sobretudo quando se trata de livros, Mindlin conseguiu a autorização das netas. Era necessária, também, a concordância dos herdeiros diretos do escritor, depositários dos direitos sobre sua obra e figura. Quem já tentou publicar alguma coisa de e sobre Guimarães Rosa sabe quanto a família é dura e relutante. Mindlin, em todo caso, conseguiu outra vitória.
“Ooó do Vovô!” veio a público, finalmente, em 2003. Parceria entre a Editora da Universidade de São Paulo (Edusp) e a Imprensa Oficial do Estado. Vera, psiquiatra em São Paulo, explica o título estranho do livro: “Demorei a falar (por pura preguiça, diziam), limitava-me a apontar para os objetos que queria pegar, chamando-os de ‘ooó’. Daí meu avô carinhosamente chamar-me de ‘ooó do vovô´. Nos cartões e nas anotações, ele recriava um universo completamente familiar para nós dois, reproduzindo sons, imagens, objetos e personagens, numa linguagem sedutora.”
Ao concordar com a publicação, a família Guimarães Rosa exigiu que constasse do livro a observação de que Vera e Beatriz não são netas sanguíneas do escritor.

Fazer a história possível

Edgar Morin é um respeitado intelectual francês com biografia comum aos da sua idade, sobretudo franceses: lutou na Segunda Guerra Mundial, filiou-se ao Partido Comunista, onde teve vida desconfortável, pois estava sempre disposto a questionar ordens e perguntar por quês e para quês. É sociólogo, antropólogo, historiador e filósofo. Em plena campanha eleitoral pela presidência da França, escreveu um artigo provocadoramente intitulado “Se eu fosse candidato”, do qual Clóvis Rossi deu pequena notícia na sua coluna na Folha de S.Paulo. Para um candidato, ainda que faz-de-conta, é um texto tão surpreendente quanto assustador.

De saída, alerta seus “eleitores” para o fato de que a França não vive isolada nem está dentro de um mundo imóvel. Ao contrário, integra-se a um sistema planetário, que “está condenado à morte ou à transformação – nossa época de transformações tornou-se uma transformação de época”. Sendo assim, esquiva-se de fazer as promessas comuns de candidatos presidenciais – saúde, educação, moradias, estradas, empregos. Em vez disso, pretende mostrar o caminho para uma Terra Pátria e uma Sociedade Mundo, com a reforma da Organização das Nações Unidas para suplantar a soberania absoluta dos Estados-nações, embora reconhecendo plenamente sua autoridade sobre tais problemas, “que não são de vida ou morte para o planeta”.

À Europa, especialmente, apresentaria um grande desafio: “Reformar sua própria civilização com o aporte moral e espiritual de outras civilizações; contribuir para um novo tipo de desenvolvimento para as nações africanas; regulamentar os preços dos produtos fabricados a custo mínimo com a exploração dos trabalhadores asiáticos; elaborar uma política comum de inserção dos imigrantes; enfim e sobretudo, abrir uma janela exemplar de paz, compreensão e tolerância”. Com tal firmeza que se propõe chegar até a uma intervenção em Darfour, Chechênia, Oriente Médio “para evitar a guerra de civilizações”.

À França não oferece um programa, inoperante em situações de mudanças, mas uma estratégia geral. Começaria com encontros entre parceiros sociais, um sobre emprego e salários, outro sobre aposentadorias. Depois viriam dois comitês: um para lutar contra as desigualdades, começando pela que envolve lucros e remunerações exageradas, de um lado, e insuficiências (como o nível e a qualidade de vida na base social), de outro; o segundo para reverter o desequilíbrio, agudizado depois de 1990, na relação capital-trabalho. Um terceiro comitê se ocuparia das questões ambientais e das transformações sociais e humanas que elas exigem.

Indicaria o caminho de uma “política de civilização” que restaurasse a solidariedade, fizesse recuar o egoísmo e reformasse “nossa sociedade e nossas vidas”. Afirma, a propósito: “Nossa civilização está em crise. Onde chegou, o bem-estar material não levou necessariamente o bem-estar mental (...) O desenvolvimento econômico não provocou o desenvolvimento moral.” Assim, ele criaria Casas de Fraternidade, nas cidades e bairros das metrópoles, como Paris, para socorrer os desvalidos em geral – e aqui apresenta uma série de questões que seria longo demais enumerar. Ele cita a necessidade de várias “desintoxicações” da sociedade, uma das quais a da publicidade, que torna sedutores produtos supérfluos.

No campo da educação, proporia reformas revolucionárias para acabar com a compartimentabilização do saber, que se aprofunda cada vez mais. Na verdade, essa é uma preocupação que Morin traz de longe e ocupa boa parte de sua obra e de seus escritos recentes. Enfim, considera que “a reforma da política, a reforma das formas de pensar, a reforma da sociedade, a reforma da vida se conjugarão para levar a uma metamorfose da sociedade. Os futuros radiosos estão mortos, mas abriremos caminho para um futuro possível.”

Com certeza Edgar Morin não pensa em vencer uma eleição, nem imagina que tais tarefas possam ocupar o tempo de um presidente da República, e aí está o que seu artigo, no meu entender, tem de assustador. Tudo o que ele indica é clara e urgentemente necessário, mas como fazer para dar conta de tantos e tão grandes desafios? Com seu espírito contestador, talvez tenha esquecido, já nos tempos de militante do PC, da muito citada frase de Marx, no “18 Brumário de Luís Bonaparte”: “Os homens fazem a própria história, mas nunca a fazem como querem.”

As igrejas e os deuses sob ataque II

Nos últimos quinhentos anos, sobretudo, cada vez que a ciência fez uma descoberta importante e inovadora, precisou enfrentar resistências das igrejas, as cristãs em particular. No final do século 15, começo do 16, o astrônomo polonês Nicolau Copérnico, sendo ele próprio um servidor do Vaticano, guardou até a morte os originais de seu livro De revolutionibus orbium coelestium (Das revoluções do orbe celeste) no qual cálculos minuciosos e precisos atestavam que a Terra gira ao redor do Sol, e não o contrário, como se acreditava. Com medo da Inquisição, mandou imprimi-lo na Alemanha protestante e reza a lenda que, ao receber o primeiro exemplar das mãos de um mensageiro enviado às pressas, sequer teve tempo de folheá-lo – morreu instantaneamente. A Igreja Católica, na verdade, não lhe deu grande importância, no momento – mas na Alemanha protestante Martinho Lutero trovejou: “A Bíblia diz que Josué mandou o Sol e a Lua pararem no céu, e não a Terra”. Referia-se ao episódio em que os judeus fugitivos do Egito, agora liderados por Josué, o substituto do patriarca Moisés, lutaram até o fim do dia para conquistar a cidade de Gabom na terra prometida e receberam de Jeová a dádiva de mais algumas horas de luz para consolidar a vitória.

Nos anos seguintes, o italiano Galileu Galilei, muito menos discreto do que Copérnico, fez um carnaval com a teoria heliocêntrica, construiu um telescópio e conseguiu ver quatro minúsculos corpos luminosos girando em torno de Júpiter, e não da Terra. Os sábios da Inquisição sequer concordaram em olhar pelo telescópio, como ele os desafiou – e não fosse Galileu um amigo do papa, teria acabado na fogueira, como Giordano Bruno. Quando completou seus cálculos, Copérnico recebeu de um assistente, tão bom matemático quanto ele, uma observação de surpresa: “Se for assim, Vênus terá fases, como a Lua”. Ao que ele respondeu, sabiamente: “Um dia o bom deus proverá ao homem meios para comprovar isso”. Além de Galileu, muitos outros cientistas, como Johanes Kepler, atestaram que os cálculos de Copérnico estavam corretos, e tinham os telescópios, cada vez mais precisos e poderosos, para o confirmar. Mas só em 1822 a Igreja, discretamente, retirou o De revolutionibus do Index de obras proibidas.

Continua assim nos nossos tempos – a Igreja combate o uso da camisinha nas relações sexuais para prevenir o contágio pela Aids, recusa as pesquisas com células tronco, é contra o aborto, em qualquer circunstância. Em todos esses anos, os cientistas tiveram enorme dificuldade para defender suas descobertas contra esse obscurantismo religioso. Muitos porque eram, eles próprios, crentes em deus. Mas a maioria por receio de afrontar uma opinião pública avassaladoramente submissa às ordenações dos sacerdotes – cristãos católicos ou protestantes, maometanos, hinduístas e o que mais exista em matéria de crença na divindade.

Essa realidade, porém, começa a mudar. Já temos no Brasil, devidamente traduzidos do inglês, uma meia dúzia de livros produzidos na Inglaterra e, principalmente, nos Estados Unidos, em que cientistas de renome dispõem-se não apenas a defender as posições da ciência, mas a atacar com surpreendente aspereza o obscurantismo religioso. Fazem isso não apenas para defender as verdades científicas, mas como um alerta para os perigos que corre a civilização, com a possibilidade de que algum político submisso a esses mandamentos religiosos chegue ao poder. No caso específico, referem-se aos Estados Unidos, “a única superpotência mundial da atualidade, perto de ser dominada por eleitores que acreditam que o universo inteiro começou depois da domesticação do cachorro”. Sam Harris, que escreveu essa frase áspera no pequeno livro “Carta a uma nação cristã”, é o mais implacável desses autores. Logo de saída, cita uma enfiada de dados revelados por uma pesquisa do Instituto Gallup: 53% dos americanos são criacionistas, o que significa que apesar de um século inteiro de descobertas científicas que atestam como é antiga a vida na Terra, e mais antigo ainda nosso planeta, acreditam que o cosmos inteiro foi criado há seis mil anos.
“Os que têm o poder de eleger presidentes, deputados e senadores – e muitos dos que são eleitos – acreditam que os dinossauros sobreviveram ao dilúvio, junto com seus pares, na arca de Noé (...) e que os primeiros membros da nossa espécie foram modelados a partir do barro e do hálito divino, em um jardim com uma cobra falante, pela mão de um deus invisível”. Esses crentes, diz Harris citando, ainda, a pesquisa Gallup, “não se preocupam com o destino da civilização”, pois “nada menos do que 44% da população americana está convencida de que Jesus vai voltar para julgar os vivos e os mortos em algum momento dos próximos 50 anos”. Lembra que a profecia bíblica afirma que Jesus voltará à Terra só depois que as coisas derem “terrivelmente errado; portanto, não é exagero dizer que se Londres, Sidney ou Nova York de repente virarem uma bola de fogo, no centro de uma explosão nuclear, uma porcentagem significativa da população americana veria um lado auspicioso nisso, pois a melhor coisa que pode acontecer ao mundo está prestes a se realizar: a volta de Jesus Cristo”.

Há muito que meditar, a partir da argumentação de Sam Harris e de seus parceiros Christopher Hitchens e Richard Dawkins. Algo de novo e surpreendente parece estar no ar. Que não se trata apenas de excentricidades de jovens buliçosos atesta-o o fato de que o livro de Dawkins, que comentarei proximamente, recebeu uma arrebatadora e elogiosa definição do crítico do jornal Independent: “Um ataque brilhante à onda de superstição que mais uma vez percorre o mundo, pelo grande cientista que, ao longo de sua carreira, tem demonstrado a força da razão sóbria e incisiva para explicar a vida”. Para um jornal americano chamar a crença religiosa de superstição, é sinal de que as coisas começam a mudar radicalmente.

As igrejas e os deuses sob ataque I

Nos tempos modernos, a mais feroz disputa entre ciência e religião vem sendo travada em torno da evolução das espécies pela seleção natural. Ela põe por terra a crença do cristianismo e do judaísmo sobre a criação do mundo e dos seres que o habitam em uma semana, por um deus todo poderoso que se deu ao luxo de descansar no sétimo dia. Comumente, acredita-se ser ela uma teoria formulada pelo naturalista inglês Charles Darwin, na segunda metade do século 19. Sendo uma teoria, dependeria ainda de provas, argumentam os religiosos.

Não é bem assim – no tempo de Darwin a evolução já era coisa firmada e confirmada por meio de incontáveis descobertas da paleontologia. O grande mistério da época era como se dava a evolução – e Darwin solucionou-a com a idéia da seleção natural, esta sim, ainda uma teoria não confirmada cientificamente. Darwin hesitou muito tempo em publicar seu trabalho, certo de que ele provocaria reações da Igreja. Isso realmente aconteceu e embora hoje pareçam hilariantes os acalorados debates havidos na época a respeito dessa controvérsia, ela ressurgiu nos anos recentes, sobretudo nos Estados Unidos, onde se tenta obrigar as escolas a ensinarem, junto com a evolução, a crença religiosa de que todos os seres vivos foram criados por deus, numa tacada só.

O biólogo Richard Dawkins tem sido um dos mais ardorosos participantes dessa batalha, embora não seja exatamente um americano. Na verdade é difícil definir o que ele é – nasceu em Nairobi, no Quênia, em 1941, cresceu na Inglaterra, formou-se na consagrada Universidade de Oxford, deu aulas em Berkeley, nos Estados Unidos, e atualmente leciona Compreensão Pública da Ciência em Oxford. Parece uma disciplina estranha, mas deve ter sido criada especialmente para ele, um elegante expositor das realidades científicas para o público leigo, como atestam seus livros “O Relojoeiro Cego”, “A Escalada do Monte Improvável”, “O Capelão do Diabo” e “O Gene Egoísta”. Todos forneceram abundante munição para a guerra contra os defensores do desígnio divino. Em seu livro mais recente, ele abandona a posição defensiva normalmente adotada pelos cientistas e parte para o ataque contra os fundamentos da religião. Não por acaso, seu título é “Deus, um Delírio”.

São 520 páginas de argumentos apresentados de maneira tão clara e lógica quanto contundente. Impossível dar aqui um resumo competente deles – mas é possível ter uma idéia do conteúdo com os títulos dos capítulos que o compõem: “Um Descrente Profundamente Religioso”, “A hipótese de que Deus Existe”, “Por Que Quase com Certeza Deus não Existe”, “As Raízes da Religião”, “As Raízes da Moralidade – Por Que Somos Bons?”, “O que a Religião Tem de Mau?”, “Infância, Abuso e a Fuga da Religião”, “Uma Lacuna Muito Necessária?” O objetivo confesso desse livro – está assinalado na contracapa da edição brasileira – é não apenas provocar os religiosos convictos, mas principalmente levar os religiosos “por inércia” a pensar racionalmente a sua crença, trocando-a pelo orgulho ateu e pelo amor à ciência.

Vou limitar-me a apresentar alguns argumentos do capítulo “O Que a Religião Tem de Mau?” Nele Dawkins relata que muitos companheiros cientistas, convictos como ele de que deus não existe, procuram-no para argumentar: o que a religião tem de errado? Ela faz tanto mal assim para que devamos combatê-la? Por que não deixar para lá, como se faz com Touro e Escorpião, a energia dos cristais e coisas assim? Não são só bobagens inofensivas? E para completar: sua hostilidade não faz de você um ateu fundamentalista, tão fundamentalista quanto aqueles malucos do Cinturão Bíblico?”

Dawkins responde com poucas e boas palavras: “Os fundamentalistas acreditam que estão certos porque leram a verdade num livro sagrado, e sabem, desde o começo, que nada os afastará de sua crença (...) Pelo contrário, as coisas em que acredito, como cientista (a evolução, por exemplo), acredito não porque li num livro sagrado, mas porque estudei as provas.” E garante: “Quando um livro de ciência está errado, alguém acaba descobrindo o erro, e ele é corrigido nos livros subseqüentes. Isso, evidentemente, não acontece com os livros sagrados (...) Acreditamos na evolução porque as evidências a sustentam, e a abandonaríamos num piscar de olhos se surgissem novas evidências que a desmentissem. Nenhum fundamentalista de verdade diria uma coisa dessas”.

Ele recorre a numerosos relatos de acontecimentos ou práticas que confirmam suas convicções. No Afeganistão, sob o Talibã, a punição oficial para a homossexualidade é enterrar o acusado, vivo. Como esse suposto crime é um ato individual, praticado por adultos com mútuo consentimento, sem fazer mal a ninguém, “temos aqui a marca registrada do absolutismo religioso”. O Talibã, com certeza, baseia-se num grotesco fundamentalismo religioso. Mas, argumenta Dawkins logo em seguida, “meu próprio país não tem do que se vangloriar: o comportamento homossexual privado foi uma transgressão criminosa na Inglaterra até – inacreditavelmente – 1967”. E lembra que em 1954 o matemático britânico Alan Turing, candidato junto com John von Neumann ao título de pai do computador, cometeu suicídio depois de ser condenado pela contravenção de manter comportamento homossexual privado. Na verdade, argumenta o autor, ele deveria ter sido aclamado como herói nacional, pois foi a cabeça essencial do serviço que, durante a Segunda Guerra Mundial, desvendou os códigos utilizados pelo Exército Alemão para transmissão de suas ordens.

Mas ele tem histórias contemporâneas para justificar seu empenho em combater o fundamentalismo e tentar abalar a tranqüilidade dos religiosos não fundamentalistas. “Voltando ao Talibã americano, ouça Randall Terry, fundador da Operação Resgate, uma organização criada para intimidar médicos que se dispõem a fazer abortos: ‘Quando eu, ou pessoas como eu, estiver governando o país, é bom você fugir, porque vamos encontrá-lo, vamos julgá-lo e vamos executá-lo. Estou falando sério.” E depois, uma amostra de sua pregação ao público geral: “Quero que você se deixe levar por uma onda de intolerância. Sim, o ódio é bom (...) Nosso objetivo é uma nação cristã. Temos um dever bíblico, somos chamados por deus a conquistar este país. Não queremos tempos iguais. Não queremos pluralismo (...) Precisamos de uma nação cristã, construída na lei de deus, nos Dez Mandamentos. Sem pedidos de desculpa.”

Poderia pegar no livro mais uma dezena de casos parecidos, acontecidos no mundo cristão e no mundo muçulmano, utilizados por Dawkins para justificar sua má vontade com a fé religiosa. Castigos irracionais ao homossexualismo, à prática do aborto, ao casamento com crentes de outras religiões, a coisas indefiníveis como a blasfêmia – um crime que, afirma o autor, ainda consta das leis inglesas. Inacreditável. Daí a certeza do autor de que as religiões cada vez mais se tornam uma ameaça à sobrevivência da democracia política, da convivência pacífica, na sociedade, de idéias e crenças diferentes ou divergentes, e da pesquisa científica em geral.
Registro, apenas, que “Deus, um Delírio”, foi um sucesso de vendas, nos Estados Unidos e na Inglaterra, desde o lançamento, em 2006. Surpreende-me que também tenha conseguido elogios consagradores da imprensa. “Um ataque brilhante à onda de superstição que mais uma vez percorre o mundo pelo grande cientista que, ao longo de sua carreira, tem demonstrado a força da razão sóbria e incisiva para explicar a vida”, escreveu Johann Brown no Independent ; “Em ‘Deus, um Delírio”, a debilidade intelectual da crença religiosa é desnudada sem piedade, assim como os crimes cometidos em nome dela”, sentenciou The Times; “Este livro é um apelo declarado para que não nos acovardemos mais”, pregou The Guardian.

Deus, um Delírio
Richard Dawkins
Tradução de Fernanda Ravagnani
Quinta reimpressão
Cia. das Letras
Todos os outros livros de Richard Dawkins aqui citados foram editados pela Cia. Das Letras e podem ser encontrados nas livrarias.

Nem tudo que parece é

Está disponível na Internet um vídeo interessante, que merece ser visto e, sobretudo, ouvido. Informo, de saída, que é uma dessas obras aparentemente inverossímeis, que tratam de conspirações diabólicas, em que homens mal intencionados unem-se para ferrar a humanidade. Chama-se “Zitgeist, the movie”, sendo zitgeist uma palavra alemã que significa alguma coisa parecida com “o espírito do tempo”, ou “o tempo de uma cultura”. Tem três partes: uma trata das religiões, o Cristianismo em particular, e é o motivo que me leva a citá-lo; a segunda é sobre o atentado contra as torres de Nova York; e o terceiro, a união dos grandes banqueiros para dominar o mundo por meio do dinheiro, muitíssimo dinheiro que nós, otários, entregamos para eles. O autor é o americano Peter Joseph, que aparentemente trabalhou sozinho numa pesquisa gigantesca – para justificar as três partes da história, ele apresenta um rol de obras consultadas portentoso. Peter expõe sucintamente seu objetivo: inspirar as pessoas a olharem o mundo de uma perspectiva mais crítica e entenderem que, muitas vezes, coisas que elas acham que são, na verdade não são. Convém, insisto, aplicar esse mandamento ao próprio filme que o anuncia.

Sobre as religiões, ele começa afirmando que todas descendem da egípcia adoração do deus Orus (o Sol), e cita uma série de coincidências de que, confesso, jamais ouvira falar – e pretendo eu próprio pesquisar para comprovar sua veracidade, atento à advertência feita pelo autor: não basta dar uma olhada rápida no Google, é preciso malhar nas bibliotecas. Todas têm um deus nascido em 25 de dezembro, de uma mãe virgem, sob a luz de uma estrela gigantesca, começaram a se revelar aos 14 anos, iniciaram sua pregação às gentes aos 30, tinham doze seguidores (ou doze irmãos), foram mortos e ressuscitaram. Compõem esse rol de superdotados o já citado Orus egípcio, Athis, da Frigia, Krishna, da Índia, Dionísios, da Grécia, Mitra, da Pérsia, e o nosso Jesus.

De onde surgiram essas coincidências? Da Astrologia, garante Peter. 25 de dezembro é o momento em que Sirius, a maior estrela do firmamento, brilha com toda a intensidade. Os números 12, 14, 30 têm lá seus significados especiais. Até a cruz, tão representativa do Cristianismo, vem da Astrologia, que divide o círculo celeste em quatro partes com duas linhas retas que se cruzam. Tudo isso está minuciosamente explicado e justificado e é impossível resumir aqui. Nem vale à pena.

O filme é interessante de ver, é daqueles que não dá folga ao espectador, desenvolve-se sempre em alta velocidade e é preciso estar atento para não perder as informações e os comentários, muitas vezes jocosos. O capítulo das religiões, por exemplo, começa com o narrador citando que deus escreveu suas leis em duas pedras, ameaçou os que as desrespeitassem uma vez sequer com a tortura infinita de um local quente, cheio de fogo. Enquanto ele fala, sucedem-se em rápida seqüência, na tela, imagens de Moisés com as tábuas dos mandamentos, os judeus aproveitando a ausência do líder para adorar um bezerro de ouro, o inferno fumegante e, para encerrar, uma mensagem curta que ocupa toda a tela: deus ama você.

Veja em Zeitgeist e procure o site do Peter, com todas as explicações necessárias, e uma infinidade de comentários a favor e contra. Divirta-se.

Se as águas chegarem lá

Os adversários da transposição do rio São Francisco têm argumentos sólidos e convincentes para sustentar sua causa. O engenheiro João Alves Filho, ex-governador de Sergipe, resumiu-os em quatro pontos básicos, em artigo publicado na Folha de S.Paulo: 1) a transposição não tem como objetivo salvar a população nordestina da seca, pois apenas uma pequeníssima parte da região semi-árida receberá a água para uso domiciliar; ela irá para o agronegócio, que a utilizará a preço altíssimo, o que inviabilizará sua condição de negócio, se ela não for subsidiada pelo governo, a vida inteira; 2) não há falta de água no Nordeste, ela existe em tal quantidade que daria para abastecer plenamente a população que ali vive; precisa ser tirada do fundo da terra, e isso também tem seu preço, menor, entretanto, do que aquele pago pela transposição do rio; 3) o Rio São Francisco está na UTI e a transposição poderá decretar sua morte; 4) Lula mentiu quando, para interromper a primeira greve de fome de dom Cappio, certamente com medo de perder a reeleição, prometeu discutir o assunto com ele, com a sociedade civil e com os movimentos sociais. Não fez nada disso.
O tiro final: uma parte apenas do dinheirão gasto com a transposição daria para implementar um amplo programa de construção de açudes, para regularizar o aproveitamento da águas das chuvas, abundante na região em certas partes do ano, e abrir poços que a tragam lá das profundezas.
A verdadeira questão que se coloca aí é aquela mesma que surgiu no começo do governo petista, quando foi criado o Bolsa Família: ele alivia a fome imediata, mas não resolve o problema verdadeiro, que é a exclusão social e econômica das populações beneficiadas. É claro que é mais urgente matar a fome e a sede daquela gente, mas também é claro que tanto o dinheiro do Bolsa Família quanto a água das cisternas permitirão, no máximo, mais conforto para que se perpetue a triste situação social, econômica e cultural ali vigente. Dar início ao aproveitamento das excepcionais condições de sol e calor ali reinantes para implantar uma sólida estrutura de produção de frutas, para as quais há mercados ávidos nos Estados Unidos e, sobretudo, na Europa, deve ser uma solução para o caso.
Lamentável é que as precárias condições em que se desenrola o processo político brasileiro imponham ao presidente da República a necessidade de mentir, para realizar seus projetos sem risco de perder o eleitorado que o consagrou ao longo dos anos; e que uma iniciativa, assim portentosa, talvez capaz de alterar profundamente as estruturas do país, como aconteceu nas décadas de 1930 e 1940, dependa exclusivamente da ação e dos dinheiros governamentais, enquanto os grandes interessados do mundo empresarial apenas aguardam que as águas cheguem lá – do mesmo modo que esperaram, naqueles anos distantes, que o aço saísse de Volta Redonda para as suas fábricas.

O verdadeiro semi-árido

Em artigo recente no O Estado de S. Paulo, Washington Novaes apresenta um resumo resumido do livro A Potencialidade do Semi-árido Brasileiro, do geólogo e hidrólogo piauiense Manoel Bonfim Ribeiro -- que trabalhou em projetos de irrigação, construiu açudes e adutoras e foi diretor da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco. Mais do que credenciado, portanto, para falar sobre a questão da água no Nordeste, em geral, e da discutida transposição das águas do Rio São Francisco. Como muitos cientistas, Ribeiro assegura que no semi-árido o problema não é de escassez mas de gestão. E cita uma enfiada de números de nos deixar de queixo caído, pelo menos a mim, de escasso conhecimento sobre essas questões.
O Nordeste tem 70 mil açudes, um a cada 14 quilômetros quadrados. É a região mais açudada do mundo. Nos 27 maiores desses açudes estão acumulados 21 bilhões de metros cúbicos de água, onze vezes a que faz os encantos da Baía da Guanabara, no Rio de Janeiro. Aqui ele se permite uma boutade e comenta: "O semi-árido é uma ilha cercada de água doce por todos os lados". Mas há mais: só nos oito grandes açudes do Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba, para onde serão levados 2 bilhões de metros cúbicos da água transposta do São Francisco, já se acumulam 12 bilhões de metros cúbicos de água pluvial. Dessa água estocada nos açudes, 30% se evaporam (o que vai acontecer, também, com certeza, com as águas da transposição). Mas há na região, ainda, a possibilidade de extrair 20 bilhões de metros cúbicos do subsolo (atualmente, extrai-se apenas 1 bilhão de metros cúbicos).
A pobreza do sem-árido, portanto, está no homem, não na terra, nem no clima -- e a conclusão não é minha, mas do autor. Nos homens, acrescento, pois é uma questão de falta de informação e conseqüente falta de conhecimento. Mas também de falta de vontade. Manoel Bonfim cita, a partir daí, uma enxurrada de riquezas que poderiam ser exploradas desde que solucionada adequadamente essa questão da água e do seu uso. Piscicultura ("pode-se multiplicar por dez a produção de peixes brasileira"), apicultura (cada colmeia, na região, produz de 80 a 100 quilos de mel por ano, enquanto na Europa conseguem-se modestos 20 a 30 quilos). Seguem-se a caprinocultura, caju e suas castanhas, de larga aceitação no exterior, umbu, cera da carnaúba, fibras vegetais como o caroá, sisal, algodão.
No prefácio, o "pai do Proálcool, professor J. W. Bautista Vidal, admira-se: "É como se Bonfim estivesse redescobrindo um novo Semi-Árido, mais verdadeiro que o anterior, fundamentado em peculiaridades pouco conhecidas, algumas únicas em todo o planeta". Nada indica, portanto, que a transposição das águas do São Francisco, sozinha, vá solucionar algum problema pois com ela ou sem ela, a verdadeira questão continuará em pé: a gestão. Ou melhor, a capacidade de buscar para todos os males as soluções mais simples, mais baratas, conseqüentemente mais adequadas e mais eficazes. Entra governo, sai governo, e fica a pergunta: poderá o Nordeste algum dia contar com essa simplicidade?
Almyr Gajardoni