Estava com o cientista político Gildo Marçal Brandão, da Universidade de São Paulo, dando os últimos retoques em uma edição especial da revista História Viva sobre a esquerda no Brasil, que estamos preparando, quando me ocorreu uma pergunta inteiramente fora do contexto: “E o Josué de Castro? Sumiu. Ninguém fala mais dele.” Falamos nós, ali, um bom tempo, e o Gildo me garantiu: é o cientista político brasileiro mais citado no exterior. Ainda hoje.
Josué nasceu em Recife, em 1908. Formou-se médico, mas ao longo da vida exuberante ocupou-se do estudo de como o homem vive e sobrevive, sobretudo nas partes subdesenvolvidas da Terra. Por sinal, foi ele o primeiro a utilizar a palavra subdesenvolvimento para caracterizar os países pobres do mundo. Foi professor universitário de Geografia Humana e Antropologia, presidente do Conselho da Organização para Alimentação e Agricultura (FAO) da ONU, presidente da Associação Mundial da Luta contra a Fome, ganhou o Prêmio Roosevelt da Academia de Ciências Políticas dos Estados Unidos, o Prêmio Internacional da Paz, oficial da Legião de Honra da França, duas vezes indicado para o Prêmio Nobel da Paz, etc etc etc. Não vou ficar aqui citando todos os cargos que ocupou nem as honrarias que lhe concederam.
Notabilizou-se pelos estudos originalíssimos que fez sobre a fome, dos quais resultaram dois livros famosíssimos – Geografia da Fome e Geopolítica da Fome, dentro de uma bibliografia de 31 títulos, quase todos traduzidos para 25 idiomas. Com essa bagagem literária e especializado em tal tema, natural que tivesse uma ficha quilométrica nos arquivos dos órgãos da segurança pública. Embaixador do Brasil na ONU, em Genebra, foi incluído numa das primeiras listas de cassações produzida pelo golpe militar, em abril de 1964. Mas não se tratou apenas de suspender-lhe os direitos políticos: pesava contra ele uma ameaça de prisão, motivo pelo qual exilou-se em Paris, onde morreu em 1973, sonhando com o retorno: “Não se morre só de enfarte, ou de glomero-nefrite crônica... Morre-se também de saudade”. Talvez essa tenha sido a coisa mais vergonhosa cometida pela ditadura.
Foi elogiado e glorificado mundo afora, por cientistas, políticos, jornalistas, escritores, intelectuais como ele. Acho que o melhor elogio que recebeu foi o de Darcy Ribeiro, por sinal, outro grande brasileiro que vai ficando esquecido: “Josué é uma das pessoas que mais admirei. Eu digo mesmo que Josué é o homem mais inteligente e mais brilhante que eu conheci (...) O diabo é que me dá uma inveja enorme...”
Tive o privilégio de conhecer Josué de Castro em Brasília, deputado federal. Pois é. Talvez vocês, mais jovens, não acreditem: mas tivemos um dia um Congresso Nacional que tinha gente como Josué de Castro, Afonso Arinos, Santiago Dantas, Temperani Pereira, Guerreiro Ramos, Djalma Marinho, Aliomar Baleeiro, Oliveira Brito, Almino Afonso, Pedro Aleixo, Adauto Lúcio Cardoso, Raul Pilla, Luís Vianna...
Todos juntos, numa fornada só.
domingo, 10 de maio de 2009
Onde a Teoria da Evolução não funciona
Em dezembro de 1831 o pequeno veleiro HMS Beagle zarpou da Inglaterra, a duras penas, com destino ao hemisfério sul. O endereço era assim amplo porque o barco tinha uma missão especial: dominadora dos sete mares, a marinha britânica promovia viagens desse tipo, periodicamente, para fazer levantamentos das costas marítimas, em todos os continentes. As viagens eram longas – essa durou cinco anos – e era praxe convidar um cientista, em geral naturalistas e geólogos, para integrar a tripulação. No Beagle embarcou um jovem naturalista e geólogo, Charles Darwin, que, muitos anos mais tarde, provocaria uma verdadeira revolução científica, ao elaborar a teoria da evolução das espécies animais pela seleção natural.
Era grande a expectativa de Darwin pelo que encontraria nas terras tropicais. A primeira parada, rápida, uma espécie de aperitivo, foi na ilha de Fernando de Noronha. Depois, Salvador. O primeiro passeio pela mata, nos arredores da cidade, foi um deslumbramento. Ele anotou no seu diário: : “O deleite que se experimenta em momentos como esse confunde a mente: se o olho tenta seguir o vôo de uma colorida borboleta, ele é detido por uma árvore ou um fruto estranhos; se observando um inseto, pode-se esquecê-lo na estranha flor sobre a qual caminha; se estiver se voltando para admirar o esplendor do cenário, o caráter individual do primeiro plano toma a atenção.”
De Salvador o Beagle foi para o Rio de Janeiro. Ali o jovem cientista ficou três meses, viajou muito pelo interior do Estado do Rio de Janeiro, coletou plantas, flores e animais, freqüentou a sociedade, suas festas, jantares, concertos, bailes, hospedou-se em albergues pobres e miseráveis, alimentou-se em casas de pasto que lhe causaram repugnância, pela falta de higiene, e fixou uma imagem que carregaria pelo resto da vida: a natureza do grande país tropical era uma maravilha, algo inimaginável para um europeu; mas os seus habitantes ... Para começar, havia a escravidão – o diário está cheio de anotações indignadas a respeito de maus tratos que os proprietários propiciavam aos seus trabalhadores. Mas não era o principal. Na corte conheceu os brasileiros ricos, da alta sociedade, boa parte dos quais amealharam seus bens com o tráfico de escravos. Darwin ouviu-lhes as conversas, anotou suas idéias e convicções, e com elas espantou-se tanto quanto se espantara com as flores, as folhas, os insetos da floresta.
Veja-se, por exemplo, o que anotou no diário, na noite de 3 de julho: “É algo aterrador ouvir os crimes monstruosos que se cometem diariamente e escapam sem punição (...) Não importa o tamanho das acusações que possam existir contra um homem de posses, é seguro que em pouco tempo ele estará livre. Todos aqui podem ser subornados. Um homem pode tornar-se marujo ou médico, ou assumir qualquer outra profissão, se puder pagar o suficiente. Foi asseverado com gravidade por brasileiros que a única falha que eles encontraram nas leis inglesas foi a de não poderem perceber que as pessoas ricas e respeitáveis tivessem qualquer tipo de vantagem sobre os miseráveis e os pobres.”
Na despedida, mostrou uma ponta de desalento: “Se ao que a natureza concedeu aos Brasis o homem acrescesse seus justos e adequados esforços, de que país poderiam jactar-se seus habitantes! Mas onde a maioria está ainda em estado de escravidão e onde o sistema se mantém por todo um embargo da educação, fonte principal das ações humanas, o que se pode esperar a não ser que seja o todo poluído por sua parte?”
É espantoso verificar quão pouco as coisas mudaram – se é que mudaram – passados quase dois séculos de grande progresso e mutações na vida em sociedade. Nossos homens da elite continuam os mesmos, muito satisfeitos com seus privilégios, e nem se dão ao cuidado de resguardar as aparências. Vejam-se os últimos acontecimentos na Câmara dos Deputados, em Brasília, só para ficar em um caso exemplar. Mas há ainda todo o resto que conhecemos.
Era grande a expectativa de Darwin pelo que encontraria nas terras tropicais. A primeira parada, rápida, uma espécie de aperitivo, foi na ilha de Fernando de Noronha. Depois, Salvador. O primeiro passeio pela mata, nos arredores da cidade, foi um deslumbramento. Ele anotou no seu diário: : “O deleite que se experimenta em momentos como esse confunde a mente: se o olho tenta seguir o vôo de uma colorida borboleta, ele é detido por uma árvore ou um fruto estranhos; se observando um inseto, pode-se esquecê-lo na estranha flor sobre a qual caminha; se estiver se voltando para admirar o esplendor do cenário, o caráter individual do primeiro plano toma a atenção.”
De Salvador o Beagle foi para o Rio de Janeiro. Ali o jovem cientista ficou três meses, viajou muito pelo interior do Estado do Rio de Janeiro, coletou plantas, flores e animais, freqüentou a sociedade, suas festas, jantares, concertos, bailes, hospedou-se em albergues pobres e miseráveis, alimentou-se em casas de pasto que lhe causaram repugnância, pela falta de higiene, e fixou uma imagem que carregaria pelo resto da vida: a natureza do grande país tropical era uma maravilha, algo inimaginável para um europeu; mas os seus habitantes ... Para começar, havia a escravidão – o diário está cheio de anotações indignadas a respeito de maus tratos que os proprietários propiciavam aos seus trabalhadores. Mas não era o principal. Na corte conheceu os brasileiros ricos, da alta sociedade, boa parte dos quais amealharam seus bens com o tráfico de escravos. Darwin ouviu-lhes as conversas, anotou suas idéias e convicções, e com elas espantou-se tanto quanto se espantara com as flores, as folhas, os insetos da floresta.
Veja-se, por exemplo, o que anotou no diário, na noite de 3 de julho: “É algo aterrador ouvir os crimes monstruosos que se cometem diariamente e escapam sem punição (...) Não importa o tamanho das acusações que possam existir contra um homem de posses, é seguro que em pouco tempo ele estará livre. Todos aqui podem ser subornados. Um homem pode tornar-se marujo ou médico, ou assumir qualquer outra profissão, se puder pagar o suficiente. Foi asseverado com gravidade por brasileiros que a única falha que eles encontraram nas leis inglesas foi a de não poderem perceber que as pessoas ricas e respeitáveis tivessem qualquer tipo de vantagem sobre os miseráveis e os pobres.”
Na despedida, mostrou uma ponta de desalento: “Se ao que a natureza concedeu aos Brasis o homem acrescesse seus justos e adequados esforços, de que país poderiam jactar-se seus habitantes! Mas onde a maioria está ainda em estado de escravidão e onde o sistema se mantém por todo um embargo da educação, fonte principal das ações humanas, o que se pode esperar a não ser que seja o todo poluído por sua parte?”
É espantoso verificar quão pouco as coisas mudaram – se é que mudaram – passados quase dois séculos de grande progresso e mutações na vida em sociedade. Nossos homens da elite continuam os mesmos, muito satisfeitos com seus privilégios, e nem se dão ao cuidado de resguardar as aparências. Vejam-se os últimos acontecimentos na Câmara dos Deputados, em Brasília, só para ficar em um caso exemplar. Mas há ainda todo o resto que conhecemos.
Nosso primeiro coleguinha
Transcorreu em junho do ano passado o 198 aniversário da circulação do primeiro exemplar do primeiro jornal brasileiro – o Correio Braziliense, ou Armazém Literário, produzido, redigido, editado e impresso em Londres, mensalmente, por Hipólito da Costa, consagrado patrono da imprensa nacional. Gaúcho da colônia de Sacramento, hoje o Uruguai, nasceu em
25 de março de 1774. Viveu, portanto, no último quartel do Século das Luzes e foi, com certeza, o mais ardoroso iluminista brasileiro. Nas 175 edições do jornal sempre houve palavras em defesa da liberdade, sobretudo da liberdade de imprensa, e de condenação ao arbítrio e à opressão – a escravidão e a discriminação racial eram-lhe sobretudo odiosos.
Antes de iniciar essa empreitada, Hipólito passou dez meses nos Estados Unidos, enviado pelo governo português. Ali ligou-se à maçonaria e, por causa disso, de volta a Lisboa, foi preso pela Inquisição. Escapou, três anos depois, graças à ajuda do nobre inglês Augustus Frederick, duque de Sussex, irmão do rei Jorge IV. O duque era o chefão da maçonaria inglesa e, de certa forma, também da portuguesa. Refugiado em Londres, conseguiu, sempre com a ajuda do protetor, algo parecido com a cidadania inglesa que o colocou a salvo das perseguições da diplomacia lusitana.
Em 1808, um acontecimento notável mudou completamente a situação de Portugal, do Brasil e do próprio Hipólito: tangida pela chegada das tropas francesas, a corte portuguesa, sob proteção da poderosa esquadra inglesa, mudou-se para o Brasil. Assim, de repente, a apagada colônia ultramarina ganhou importância política, reconhecida internacionalmente. Foi grande o assanhamento nas principais chancelarias do velho continente, pois mesmo com o território português ocupado, a corte, e com ela o Império português, estavam a salvo – apesar da genialidade militar de seu comandante, o imperador Napoleão Bonaparte, o exército francês não tinha capacidade para atravessar o Atlântico e atacar o Brasil.
A corte, com o príncipe regente Dom João à frente, instalou-se no Rio de Janeiro. Veio para um Brasil atrasado, graças às variadas proibições impostas à colônia pela legislação portuguesa – não havia estabelecimentos industriais, a não ser os dedicados à produção do açúcar, e nem tipografias. Essa conjuntura inspirou Hipólito a criar o seu jornal. Autores consagrados como Sílvio Romero e Barbosa Lima Sobrinho consideram o Redator do Correio Braziliense (assim o próprio Hipólito se chamava, na terceira pessoa) um precursor e pregador da Independência. Na verdade, a sua linha política, se assim podemos dizer, estava centrada na luta pela elevação do status político do Brasil dentro do império português, a manutenção de sua unidade e a reforma da própria monarquia, colocando-a sob o controle de uma Constituição. O ideário do Iluminismo, sem dúvida.
Tão notável quanto o trabalho intelectual foi o trabalho físico desenvolvido pelo jornalista. Durante 14 anos (de junho de 1808 a dezembro de 1822) cuidou sozinho da “redação, edição e correspondência”, segundo suas palavras, de 175 edições pontualmente distribuídas. O número de páginas variava entre 72 e 140 (a edição de agosto de 1812, no entanto, chegou a 236). O meio mais rápido de comunicação, na época, era o navio a vela, mas apesar disso o Correio chegava sempre cheio de notícias sobre os principais governos europeus – Inglaterra, França, Rússia, Itália, Áustria, Alemanha, até a distante Suécia, Portugal e Espanha, sobretudo. Os sucessos e insucessos do exército de Napoleão na Rússia, por exemplo, foram seguidos passo a passo – bem como a fofocagem que cercou o casamento do imperador francês com Maria Luísa. Os novos livros, as descobertas científicas, números do comércio internacional, faziam do Correio um verdadeiro Armazém Literário.
Às vezes, parecia milagroso. A Carta de Ley de Dom João que promoveu o Brasil à condição de reino unido a Portugal e Algarves foi assinada no Rio de Janeiro em 16 de dezembro de 1815 e foi publicada, na íntegra, na edição de fevereiro de 1816. Como a viagem do Rio a Londres demorava, em média, 40 dias, Hipólito deve ter recebido o documento, na melhor das hipóteses, no fim de janeiro, época em que a edição devia estar pronta. É compreensível o esforço feito, pois esse documento de certa forma representava a vitória da sua pregação. Nos anos seguintes, no entanto, a situação deteriorou em Portugal, houve a revolução, instalaram-se as Cortes Constitucionais e, com elas, a pressão para que o já rei Dom João retornasse ao país, e o Brasil voltasse à condição de colônia. Isso encorajou a campanha pela independência, e o próprio rei, ao embarcar para a Europa, reconheceu a iminência da separação e aconselhou o filho, Dom Pedro, a colocar na sua cabeça a coroa do Brasil.
Em janeiro de 1822, finalmente, Hipólito reconhece que o reino unido tornara-se inviável e admite a independência. Em dezembro daquele ano, consumada a separação, despede-se dos leitores com uma lacônica nota de 16 linhas, justificando a retirada pelo fato de que, havendo liberdade de imprensa no Brasil, “as muitas gazetas, que se publicam nas suas principaes cidades, escusam este trabalho d`antes tão necessário”.
José Bonifácio, que com a independência tornara-se um dos mais importantes políticos brasileiros, chegou a nomeá-lo representante do Brasil independente na Inglaterra. Mas Hipólito nada chegou a fazer de prático, pois morreu menos de um ano depois. Tinha apenas 49 anos, e fez tudo isso.
25 de março de 1774. Viveu, portanto, no último quartel do Século das Luzes e foi, com certeza, o mais ardoroso iluminista brasileiro. Nas 175 edições do jornal sempre houve palavras em defesa da liberdade, sobretudo da liberdade de imprensa, e de condenação ao arbítrio e à opressão – a escravidão e a discriminação racial eram-lhe sobretudo odiosos.Antes de iniciar essa empreitada, Hipólito passou dez meses nos Estados Unidos, enviado pelo governo português. Ali ligou-se à maçonaria e, por causa disso, de volta a Lisboa, foi preso pela Inquisição. Escapou, três anos depois, graças à ajuda do nobre inglês Augustus Frederick, duque de Sussex, irmão do rei Jorge IV. O duque era o chefão da maçonaria inglesa e, de certa forma, também da portuguesa. Refugiado em Londres, conseguiu, sempre com a ajuda do protetor, algo parecido com a cidadania inglesa que o colocou a salvo das perseguições da diplomacia lusitana.
Em 1808, um acontecimento notável mudou completamente a situação de Portugal, do Brasil e do próprio Hipólito: tangida pela chegada das tropas francesas, a corte portuguesa, sob proteção da poderosa esquadra inglesa, mudou-se para o Brasil. Assim, de repente, a apagada colônia ultramarina ganhou importância política, reconhecida internacionalmente. Foi grande o assanhamento nas principais chancelarias do velho continente, pois mesmo com o território português ocupado, a corte, e com ela o Império português, estavam a salvo – apesar da genialidade militar de seu comandante, o imperador Napoleão Bonaparte, o exército francês não tinha capacidade para atravessar o Atlântico e atacar o Brasil.
A corte, com o príncipe regente Dom João à frente, instalou-se no Rio de Janeiro. Veio para um Brasil atrasado, graças às variadas proibições impostas à colônia pela legislação portuguesa – não havia estabelecimentos industriais, a não ser os dedicados à produção do açúcar, e nem tipografias. Essa conjuntura inspirou Hipólito a criar o seu jornal. Autores consagrados como Sílvio Romero e Barbosa Lima Sobrinho consideram o Redator do Correio Braziliense (assim o próprio Hipólito se chamava, na terceira pessoa) um precursor e pregador da Independência. Na verdade, a sua linha política, se assim podemos dizer, estava centrada na luta pela elevação do status político do Brasil dentro do império português, a manutenção de sua unidade e a reforma da própria monarquia, colocando-a sob o controle de uma Constituição. O ideário do Iluminismo, sem dúvida.
Tão notável quanto o trabalho intelectual foi o trabalho físico desenvolvido pelo jornalista. Durante 14 anos (de junho de 1808 a dezembro de 1822) cuidou sozinho da “redação, edição e correspondência”, segundo suas palavras, de 175 edições pontualmente distribuídas. O número de páginas variava entre 72 e 140 (a edição de agosto de 1812, no entanto, chegou a 236). O meio mais rápido de comunicação, na época, era o navio a vela, mas apesar disso o Correio chegava sempre cheio de notícias sobre os principais governos europeus – Inglaterra, França, Rússia, Itália, Áustria, Alemanha, até a distante Suécia, Portugal e Espanha, sobretudo. Os sucessos e insucessos do exército de Napoleão na Rússia, por exemplo, foram seguidos passo a passo – bem como a fofocagem que cercou o casamento do imperador francês com Maria Luísa. Os novos livros, as descobertas científicas, números do comércio internacional, faziam do Correio um verdadeiro Armazém Literário.
Às vezes, parecia milagroso. A Carta de Ley de Dom João que promoveu o Brasil à condição de reino unido a Portugal e Algarves foi assinada no Rio de Janeiro em 16 de dezembro de 1815 e foi publicada, na íntegra, na edição de fevereiro de 1816. Como a viagem do Rio a Londres demorava, em média, 40 dias, Hipólito deve ter recebido o documento, na melhor das hipóteses, no fim de janeiro, época em que a edição devia estar pronta. É compreensível o esforço feito, pois esse documento de certa forma representava a vitória da sua pregação. Nos anos seguintes, no entanto, a situação deteriorou em Portugal, houve a revolução, instalaram-se as Cortes Constitucionais e, com elas, a pressão para que o já rei Dom João retornasse ao país, e o Brasil voltasse à condição de colônia. Isso encorajou a campanha pela independência, e o próprio rei, ao embarcar para a Europa, reconheceu a iminência da separação e aconselhou o filho, Dom Pedro, a colocar na sua cabeça a coroa do Brasil.
Em janeiro de 1822, finalmente, Hipólito reconhece que o reino unido tornara-se inviável e admite a independência. Em dezembro daquele ano, consumada a separação, despede-se dos leitores com uma lacônica nota de 16 linhas, justificando a retirada pelo fato de que, havendo liberdade de imprensa no Brasil, “as muitas gazetas, que se publicam nas suas principaes cidades, escusam este trabalho d`antes tão necessário”.
José Bonifácio, que com a independência tornara-se um dos mais importantes políticos brasileiros, chegou a nomeá-lo representante do Brasil independente na Inglaterra. Mas Hipólito nada chegou a fazer de prático, pois morreu menos de um ano depois. Tinha apenas 49 anos, e fez tudo isso.
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Ode à alegria
No mundo musical, 7 de maio de 1824 é uma data muito especial: é o dia da primeira apresentação da maravilhosa Nona Sinfonia, composta por Ludwig van Beethoven. Foi no Kärnthnerthor Theater de Viena, inteiramente lotado por um público que, deslumbrado, reagiu com “uma trovoada de aplausos”, segundo registram os biógrafos do grande compositor. Este, no entanto, durante o espetáculo, que incluiu outras duas composições suas – a Abertura, opus 124, e o Kyrie, o Credo e o Agnus Dei da Missa Solemnis – passou todo o tempo folheando as partituras e marcando o tempo, indiferente à música e ao entusiasmo dos espectadores. Beethoven estava completamente surdo e jamais pôde ouvir, como nós, felizardos, a sua obra-prima.
Essa contraditória relação entre música e surdez, no entanto, não é uma singularidade apenas da vida de Beethoven. Na cidade de Bauru, bem lá no centro geográfico do Estado de São Paulo, uma repartição da administração pública estadual a utiliza rotineiramente, com resultados extraordinários e comoventes. Falo do Hospital de Reabilitação de Anomalias Crânio-Faciais, mais conhecido como “o Centrinho da USP”, nessa especialidade uma reconhecida referência internacional. Acontece em dois departamentos – o Centro Educacional do Deficiente Auditivo (Cedau) e o Núcleo Integrado de Reabilitação e Habilitação (NIRH).
O Cedau tem um coral formado por crianças de 2 a 14 anos que, nascidas parcial ou totalmente surdas, são submetidas desde cedo a intensivo treinamento para desenvolver a capacidade de falar. Em 2001, de uma improvisada cantoria na festa de aniversário do Centro surgiu a idéia de criar um coral. Pois ele existe, é formado por 33 crianças deficientes auditivas, que fazem rotineiras apresentações públicas com um entusiasmo que aquele alquebrado Beethoven, também surdo, não conseguiu oferecer a seus admiradores. Quando começam a receber esse treinamento bem cedo, por volta dos 2 anos, as crianças conseguem ótimos resultados no desenvolvimento da fala. “A criança diagnosticada precocemente responde melhor à reabilitação e ao treinamento da voz. E a música é um complemento importante do nosso trabalho”, explica a pedagoga Kátia Fugiwara.
Ainda tem mais – esse Centrinho é mesmo da pá virada. Além do coral dos deficientes auditivos mirins do Cedau, que conseguem aprender a falar, ele tem o coral do NIRH, com 35 cantores de 7 a 25 anos, completamente surdos, que não receberam treinamento bem cedo, e por isso não falam. Cantores que não falam – tão extraordinário quanto Beethoven, um compositor surdo. Esse coral também foi criado em 2001. “Achávamos que o surdo também podia se comunicar por meio da música, igual a qualquer outra pessoa”, explica a coordenadora Maria José. Como é possível? Eles utilizam a linguagem de sinais Libras – cantam fazendo sinais. Mas não se trata de apenas fazer sinais, com as mãos e os dedos, no palco. Essa reconstrução lingüística é um processo lento, desenvolvido com a ajuda da fonoaudiologia, da pedagogia, da psicologia e de Libras. Trabalha-se a letra, o sentido, a autoria, repetem-se mil vezes exercícios de interpretação corporal e facial. Por isso eles aprendem no máximo duas músicas por ano. Luís Augusto Pires Júnior, 17 anos, um dos cantores, explica a sensação de estar no palco cantando dessa forma: “É muito legal ver que todas as pessoas estão olhando para você. Dá emoção e felicidade. Às vezes me sinto como um cantor famoso, igual àqueles da televisão. No coral, pareço um deles.”
Essa contraditória relação entre música e surdez, no entanto, não é uma singularidade apenas da vida de Beethoven. Na cidade de Bauru, bem lá no centro geográfico do Estado de São Paulo, uma repartição da administração pública estadual a utiliza rotineiramente, com resultados extraordinários e comoventes. Falo do Hospital de Reabilitação de Anomalias Crânio-Faciais, mais conhecido como “o Centrinho da USP”, nessa especialidade uma reconhecida referência internacional. Acontece em dois departamentos – o Centro Educacional do Deficiente Auditivo (Cedau) e o Núcleo Integrado de Reabilitação e Habilitação (NIRH).
O Cedau tem um coral formado por crianças de 2 a 14 anos que, nascidas parcial ou totalmente surdas, são submetidas desde cedo a intensivo treinamento para desenvolver a capacidade de falar. Em 2001, de uma improvisada cantoria na festa de aniversário do Centro surgiu a idéia de criar um coral. Pois ele existe, é formado por 33 crianças deficientes auditivas, que fazem rotineiras apresentações públicas com um entusiasmo que aquele alquebrado Beethoven, também surdo, não conseguiu oferecer a seus admiradores. Quando começam a receber esse treinamento bem cedo, por volta dos 2 anos, as crianças conseguem ótimos resultados no desenvolvimento da fala. “A criança diagnosticada precocemente responde melhor à reabilitação e ao treinamento da voz. E a música é um complemento importante do nosso trabalho”, explica a pedagoga Kátia Fugiwara.
Ainda tem mais – esse Centrinho é mesmo da pá virada. Além do coral dos deficientes auditivos mirins do Cedau, que conseguem aprender a falar, ele tem o coral do NIRH, com 35 cantores de 7 a 25 anos, completamente surdos, que não receberam treinamento bem cedo, e por isso não falam. Cantores que não falam – tão extraordinário quanto Beethoven, um compositor surdo. Esse coral também foi criado em 2001. “Achávamos que o surdo também podia se comunicar por meio da música, igual a qualquer outra pessoa”, explica a coordenadora Maria José. Como é possível? Eles utilizam a linguagem de sinais Libras – cantam fazendo sinais. Mas não se trata de apenas fazer sinais, com as mãos e os dedos, no palco. Essa reconstrução lingüística é um processo lento, desenvolvido com a ajuda da fonoaudiologia, da pedagogia, da psicologia e de Libras. Trabalha-se a letra, o sentido, a autoria, repetem-se mil vezes exercícios de interpretação corporal e facial. Por isso eles aprendem no máximo duas músicas por ano. Luís Augusto Pires Júnior, 17 anos, um dos cantores, explica a sensação de estar no palco cantando dessa forma: “É muito legal ver que todas as pessoas estão olhando para você. Dá emoção e felicidade. Às vezes me sinto como um cantor famoso, igual àqueles da televisão. No coral, pareço um deles.”
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